Meu Deus eu Creio, Adoro, Espero e Amo-Vos. Peço-Vos perdão para todos aqueles que não creem, não adoram, não esperam e não Vos amam.

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By Translate Formação Católica

12 maio 2017

JACINTA MARTO - MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA




Graças alcançadas pela Jacinta

Havia no nosso lugar uma mulher que nos insultava sempre que nos encontrava. Encontramo-la, um dia, quando saía duma taberna, e a pobre, como não estava em si, não se contentou, dessa vez, só com insultar-nos. Quando terminou o seu trabalho, a Jacinta diz-me:
Temos que pedir a Nossa Senhora e oferecer-Lhe sacrifícios pela conversão desta mulher. Diz tantos pecados que, se não se confessa, vai para o inferno. 

Passados alguns dias, corríamos em frente da porta da casa desta mulher. De repente, a Jacinta pára no meio da sua carreira e voltando-se para trás pergunta:
Olha, é amanhã que vamos ver aquela Senhora?
É sim.
Então não brinquemos mais. Fazemos este sacrifício pela conversão dos pecadores.

E sem pensar que alguém a podia ver, levanta as mãozinhas e os olhos ao Céu e faz o oferecimento. A mulherzinha espreitava por um postigo da casa e depois, dizia ela a minha mãe, que a tinha impressionado tanto aquela acção da Jacinta, que não necessitava doutra prova para crer na realidade dos factos. E daí para o futuro, não só nos não insultava, mas pedia-nos continuamente para pedirmos por ela a Nossa Senhora, que Ihe perdoasse os seus pecados.

Encontrou-nos um dia uma pobre mulher e, chorando, ajoelhou-se diante da Jacinta a pedir-lhe que Ihe obtivesse de Nossa Senhora a cura duma terrível doença. A Jacinta, ao ver de joelhos, diante de si, uma mulher, afligiu-se e pegou-lhe nas mãos trémulas para a levantar. Mas vendo que não era capaz, ajoelhou também e rezou com a mulher três Ave-Marias; depois, pediu-lhe que se levantasse, que Nossa Senhora havia de curá-la. E não deixou mais de rezar todos os dias por ela, até que, passado algum tempo, tornou a aparecer para agradecer a Nossa Senhora a sua cura.

Outra vez, era um soldado que chorava como uma criança. Tinha recebido ordem de partir para a guerra e deixava a sua mulher em cama, doente, e três filhinhos. Ele pedia ou a cura da mulher ou
a revogação da ordem. A Jacinta convidou-o a rezar com ela o Terço. Depois disse-lhe:
Não chore. Nossa Senhora é tão boa! Com certeza faz-Ihe a graça que Ihe pede.

E não esqueceu mais o seu soldado. No fim do Terço rezava sempre uma Ave-Maria pelo soldado. Passados alguns meses, apareceu com sua esposa e seus três filhinhos para agradecer a Nossa Senhora as duas graças recebidas. Por causa duma febre que Ihe tinha dado na véspera de partir, tinha sido livre do serviço militar e sua esposa, dizia ele, tinha sido curada por milagre de Nossa Senhora.

Novos sacrifícios

Disseram um dia que vinha a interrogar-nos um Sacerdote que era santo e que adivinhava o que se passava no íntimo de cada um e que, por isso, ia a descobrir se sim ou não dizíamos a verdade.
A Jacinta dizia, então, cheia de alegria:
Quando virá esse Senhor Padre que adivinha? Se adivinha,
há-de saber muito bem que falamos verdade.


Brincávamos, um dia, sobre o poço já mencionado. A mãe da Jacinta tinha ali uma vinha pegada. Cortou alguns cachos e veio trazer-no-los, para que os comêssemos. Mas a Jacinta não esquecia
nunca os seus pecadores. – Não os comemos – dizia ela – e oferecemos este sacrifício
pelos pecadores.

Depois, correu a levar as uvas às outras crianças que brincavam na rua. À volta, vinha radiante de alegria; tinha encontrado os nossos antigos pobrezinhos e tinha-lhas dado a eles.

Outra vez, minha tia foi chamar-nos para comermos uns figos que tinha trazido para casa e que na realidade abriam o apetite a qualquer. A Jacinta sentou-se connosco, satisfeita, ao lado da cesta
e pega no primeiro para começar a comer; mas, de repente, lembra-se e diz: – É verdade! Ainda hoje não fizemos nenhum sacrifício pelos pecadores! Temos que fazer este. Põe o figo na cesta, faz o oferecimento e lá deixámos os figos, para converter os pecadores.

A Jacinta repetia com frequência estes sacrifícios, mas não me detenho a contar mais; se não, nunca
acabo.

DOENÇA E MORTE DE JACINTA
Jacinta, vítima da pneumonia.

Passavam assim os dias da Jacinta, quando Nosso Senhor mandou a pneumonia, que a prostrou em cama, com seu Irmãozinho. Nas vésperas de adoecer dizia: – Dói-me tanto a cabeça e tenho tanta sede! Mas não quero beber, para sofrer pelos pecadores. 

Todo o tempo que me ficava livre da escola e de alguma outra coisa que me mandassem fazer, ia para junto dos meus companheiros. Quando, um dia, passava para a escola, diz-me a Jacinta: – Olha, diz a Jesus escondido, que eu gosto muito d’Ele e que O amo muito. Outras vezes dizia: – Diz a Jesus que Lhe mando muitas saudades. Quando ia primeiro ao quarto dela, dizia: – Agora vai ver o Francisco; eu faço o sacrifício de ficar aqui sozinha. Um dia, sua mãe levou-lhe uma xícara de leite e disse-lhe que o tomasse. – Não quero, minha mãe – respondeu, afastando com a mãozinha a xícara. Minha tia ateimou um pouco e depois retirou-se, dizendo: – Não sei como Ihe hei-de fazer tomar alguma coisa, com tanto fastio! Logo que ficamos sós, perguntei-lhe: – Como desobedeces assim a tua mãe e não ofereces este sacrifício a Nosso Senhor? Ao ouvir isto, deixou cair algumas lágrimas, que eu tive a felicidade de limpar, e disse: – Agora não me lembrei! 

E chama pela mãe, pede-lhe perdão que toma tudo quanto ela quiser. A mãe traz-lhe a xícara do leite; toma-o sem mostrar a mais leve repugnância. Depois, diz-me: – Se tu soubesses quanto me custou a tomar! Em outra ocasião, disse-me: – Cada vez me custa mais a tomar o leite e os caldos; mas não digo nada. Tomo tudo por amor de Nosso Senhor e do Imaculado Coração de Maria, nossa Mãezinha do Céu. Perguntei-lhe um dia: – Estás melhor? – Já sabes que não melhoro. E acrescentou: – Tenho tantas dores no peito! Mas não digo nada; sofro pela conversão dos pecadores. Quando, um dia, cheguei junto dela, perguntou-me: – Já fizeste hoje muitos sacrifícios? Eu fiz muitos. Minha mãe foi-se embora e eu quis ir muitas vezes visitar o Francisco e não fui.
*Jacinta adoeceu em Outubro de 1918; Francisco pouco depois.
Visita de Nossa Senhora

Recuperou, no entanto, algumas melhoras. Pôde ainda levantar-se e passava, então, os dias sentada na cama do irmãozinho. Um dia mandou-me chamar: que fosse junto dela depressa. Lá fui, correndo.
– Nossa Senhora veio-nos ver e diz que vem buscar o Francisco muito breve para o Céu. E a mim perguntou-me se queria ainda converter mais pecadores. Disse-Lhe que sim. Disse-me que ia para um hospital, que lá sofreria muito; que sofresse pela conversão dos pecadores, em reparação dos pecados contra o Imaculado Coração de Maria e por amor de Jesus. Perguntei se tu ias comigo. Disse que não. Isto é o que me custa mais. Disse que ia minha mãe levar-me e, depois, fico lá sozinha! Depois, ficou algum tempo pensativa. Depois, acrescentou: – Se tu fosses comigo! O que mais me custa é ir sem ti. Se calhar, o hospital é uma casa muito escura, onde não se vê nada; e eu estou ali a sofrer sozinha! Mas não importa, sofro por amor de Nosso Senhor, para reparar o Imaculado Coração de Maria, pela conversão dos pecadores e pelo Santo Padre.

Quando chegou o momento de seu irmãozinho partir para o Céu, ela fez as suas recomendações:
Dá muitas saudades minhas a Nosso Senhor e a Nossa  Senhora e diz-Lhes que sofro tudo quanto Eles quiserem, para converter os pecadores e reparar o Imaculado Coração de Maria. Sofreu muito com a morte do irmão. Ficava por muito tempo pensativa; e se se Ihe perguntava no que estava a pensar, respondia:

– No Francisco. Quem me dera vê-lo! E os olhos arrasavam-se-lhe de lágrimas. Um dia, disse-lhe:
A ti já te falta pouco para ires para o Céu; mas eu! 
Coitadinha! Não chores. Lá, hei-de pedir muito, muito, por ti.
Tu, é Nossa Senhora que quer assim. Se me quisesse a mim, ficava contente, para sofrer mais pelos pecadores.

No hospital de Ourém

Chegou também o dia de ir para o hospital, onde, na verdade, teve muito que sofrer. Quando a mãe a foi visitar, perguntou-lhe se queria alguma coisa. Disse-lhe que queria ver-me. Minha tia, ainda que com inúmeros sacrifícios, lá me levou, logo que pôde voltar. Logo que me viu, abraçou-me com alegria e pediu à mãe que me deixasse ficar e fosse a fazer compras. Perguntei-lhe, então, se sofria muito. – Sofro, sim; mas ofereço tudo pelos pecadores e para reparar o Imaculado Coração de Maria.
                                                                         *Francisco morreu em 4 de Abril de 1919.

Trata-se do primeiro hospital em que ela esteve: o de Santo Agostinho de Vila Nova de Ourém. Esteve aí internada de 1 de Julho a 31 de Agosto de 1919. Depois falou com entusiasmo de Nosso Senhor e de Nossa Senhora e dizia: – Gosto tanto de sofrer por Seu amor! Para dar-Lhes gosto! Eles
gostam muito de quem sofre para converter os pecadores.

Esse tempo destinado para a visita passou rápido; e minha tia lá estava para me levar. Perguntou à sua filhinha se queria alguma coisa. Pediu para me trazer outra vez, quando voltasse a vê-la. E minha boa tia, que queria dar gosto à sua filhinha, lá me levou uma segunda vez. Encontrei-a com a mesma alegria por sofrer por amor de nosso bom Deus, do Imaculado Coração de Maria, pelos pecadores
e pelo Santo Padre; era o seu ideal, era no que falava.

Regresso a Aljustrel

Voltou ainda algum tempo para casa dos pais, com uma grande ferida aberta no peito, cujos curativos diários sofria sem uma queixa, sem mostrar o menor sinal de enfado. O que mais Ihe custava eram as frequentes visitas e interrogatórios das pessoas que a procuravam e às quais agora não podia esconder-se. – Ofereço também este sacrifício pelos pecadores – dizia com resignação. Quem me dera ir ao Cabeço rezar ainda um Terço na nossa loca! Mas já não sou capaz. Quando fores à Cova de Iria, reza por mim. Decerto nunca mais lá vou – dizia com as lágrimas a correr-lhe pelas faces.

Um dia, disse-me minha tia: – Pergunta à Jacinta o que está a pensar, quando está tanto tempo com as mãos na cara, sem se mover, já Iho tenho perguntado, mas sorri-se e não responde. 

Fiz a pergunta. – Penso – respondeu – em Nosso Senhor, Nossa Senhora, nos pecadores e em ... (Nomeou algumas coisas do segredo). Gosto muito de pensar. Minha tia perguntou-me pela resposta da sua filhinha; com um sorriso, tinha tudo dito. Então dizia minha tia a minha Mãe contando o que se tinha passado: – Não entendo; a vida destas crianças é um enigma! E minha Mãe acrescentava: – Quando estão sós, falam pelos cotovelos, sem que a gente seja capaz de Ihes apanhar uma palavra, por mais que escute; e logo que chega alguém, baixam a cabeça e não dizem uma palavra! Não posso entender este mistério! 

Novas visitas de Nossa Senhora

De novo a Santíssima Virgem se dignou visitar a Jacinta, para Ihe anunciar novas cruzes e sacrifícios. Deu-me a notícia e dizia-me: – Disse-me que vou para Lisboa, para outro hospital; que não te torno a ver, nem os meus pais; que, depois de sofrer muito, morro sozinha, mas que não tenha medo; que me vai lá Ela a buscar para o Céu.

E chorando, abraçava-me e dizia: – Nunca mais te torno a ver. Tu lá não me vais a visitar. Olha, reza muito por mim, que morro sozinha. Até que chegou o dia de ir para Lisboa, sofreu horrivelmente! Abraçava-se a mim e dizia, chorando: – Nunca mais te hei-de tornar a ver?! Nem a minha mãe, nem os meus irmãos, nem o meu pai?! Nunca mais hei-de ver ninguém?!

E depois morro sozinha! – Não penses nisso – Ihe disse um dia. – Deixa-me pensar, porque, quanto mais penso, mais sofro; e eu quero sofrer por amor de Nosso Senhor e pelos pecadores. E depois não me importo! Nossa Senhora vai-me lá a buscar para o Céu. 

Às vezes beijava um crucifixo e, abraçando-o, dizia: – Ó meu Jesus, eu Vos amo e quero sofrer muito por Vosso amor. Outras vezes dizia: – Ó Jesus, agora podes converter muitos pecadores, porque este sacrifício é muito grande!

Perguntava-me, às vezes: – E vou morrer sem receber a Jesus escondido? Se m’O levasse Nossa Senhora, quando me for a buscar!... Perguntei-lhe uma vez: – Que vais a fazer no Céu? – Vou amar muito a Jesus, o Imaculado Coração de Maria, pedir muito por ti, pelos pecadores, pelo Santo Padre, pelos meus pais e irmãos e por todas essas pessoas que me têm pedido para pedir por elas.

Quando a mãe se mostrava triste por a ver tão doentinha dizia: – Não se aflija, minha Mãe: vou para o Céu. Lá hei-de pedir muito por ti. Outras vezes, dizia: – Não chore, eu estou bem.

Se Ihe perguntavam se precisava de alguma coisa, dizia: – Muito obrigada, não preciso nada.

Quando se retiravam, dizia:

–Tenho muita sede, mas não quero beber; ofereço a Jesus pelos pecadores.

Um dia que minha tia me fazia algumas perguntas, chamou-me e disse-me: – Não quero que digas a ninguém que eu sofro; nem à minha mãe, porque não quero que se aflija. 

Um dia, encontrei-a abraçando uma estampa de Nossa Senhora e a dizer: – Ó minha Mãezinha do Céu, então eu hei-de morrer sozinha?

A pobre criança parecia assustar-se com a ideia de morrer sozinha. Para a animar, dizia-lhe: – Que te importa morrer sozinha, se Nossa Senhora te vai a buscar?É verdade! Não me importa nada. Mas não sei como é; às vezes não me lembro que Ela me vai a buscar, só me lembro que morro sem tu estares ao pé de mim.

Partida para Lisboa

Chegou, por fim, o dia de partir para Lisboa. A despedida cortava o coração. Permaneceu muito tempo abraçada ao meu pescoço e dizia, chorando: – Nunca mais nos tornamos a ver! Reza muito por mim, até que eu vá para o Céu. Depois, lá, eu peço muito por ti. Não digas.

Foi para Lisboa em 21 de Janeiro de 1920, tendo ficado no Orfanato de Nossa Senhora dos Milagres, fundado e dirigido pela Madre Godinho, Rua da Estrela, 17.

Foi internada a 2 de Fevereiro de 1920 no Hospital D. Estefânia; aí faleceu, a 20 de Fevereiro de 1920, às 22.30 horas.

Estas Memórias da Lúcia foram transcritas, pela primeira vez, pelo Cónego Dr. José Galamba de Oliveira, no seu livro «Jacinta» (Maio de 1938). nunca o segredo a ninguém, ainda que te matem. Ama muito a Jesus e o Imaculado Coração de Maria e faz muitos sacrifícios pelos pecadores.

De Lisboa, mandou-me ainda dizer que Nossa Senhora já lá a tinha ido ver; que Ihe tinha dito a hora e dia em que morria; e recomendava-me que fosse muito boa.

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