Meu Deus eu Creio, Adoro, Espero e Amo-Vos. Peço-Vos perdão para todos aqueles que não creem, não adoram, não esperam e não Vos amam.

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Formação Católica
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17 março 2016

ENCÍCLICA E SUPREMI APOSTOLATUS - SÃO PIO X



CARTA ENCÍCLICA
E SUPREMI APOSTOLATUS

DE SUA SANTIDADE PAPA PIO X

SOBRE A RESTAURAÇÃO DE TUDO EM CRISTO

A TODOS OS NOSSOS VENERÁVEIS
IRMÃOS, OS PATRIARCAS,
PRIMAZES, ARCEBISPOS
E BISPOS DO ORBE CATÓLICO,
EM GRAÇA E COMUNHÃO
COM A SÉ APOSTÓLICA

Veneráveis Irmãos, Saudação e Benção Apostólica.
Sua elevação ao Pontificado.

1. No momento de vos dirigir pela primeira vez a palavra do alto desta cátedra apostólica a que fomos elevado por um impenetrável conselho de Deus, inútil é lembrar-vos com que lágrimas e com que ardentes preces Nos esforçamos por desviar de nós o múnus tão pesado do Pontificado supremo. Mau grado a desproporção absoluta dos méritos, parece-nos podermo-nos apropriar das queixas de S. Anselmo quando, a despeito das suas oposições e das suas repugnâncias, se viu forçado a aceitar a honra do episcopado. Os testemunhos de tristeza que ele então deu, Nós podemos produzi-los por Nossa vez, para mostrarmos em que disposições de alma e de vontade aceitamos a missão tão temível de pastor do rebanho de Jesus Cristo. As lágrimas dos meus olhos me são testemunhas, escrevia ele (Ep. 1.III,1), assim como os gritos e, por assim dizer, os rugidos que meu coração soltava na sua angústia profunda. Eles foram tais que não me lembro de haver deixado escapar semelhantes em nenhuma dor antes do dia em que essa calamidade do arcebispado de Cantuária veio desabar sobre mim. Não puderam ignorá-lo aqueles que, naquele dia, viram de perto o meu rosto. Mais semelhante a um cadáver do que a um homem vivo, eu estava pálido de consternação e de dor. A essa eleição, ou, antes, a essa violência, resisti até agora, digo-o em verdade, tanto quanto me foi possível. Mas agora, a gosto ou a contragosto, eis-me forçado a reconhecer cada vez mais claramente que os desígnios de Deus são contrários aos meus esforços, de tal sorte que nenhum meio me resta de lhes escapar. Vencido menos pela violência dos homens do que pela violência de Deus, contra quem prudência alguma poderia prevalecer, depois de fazer todos os esforços em meu poder para que esse cálice se afaste de mim sem que eu o beba, não vejo outra determinação a tomar senão a de renunciar ao meu senso próprio, à minha vontade, e entregar-me inteiramente ao juízo e a vontade de Deus.

ENCÍCLICA ACERBO NIMIS - SÃO PIO X



CARTA ENCÍCLICA
ACERBO NIMIS

DE SUA SANTIDADE PAPA PIO X
SOBRE O ENSINO DO CATECISMO

A TODOS OS NOSSOS VENERÁVEIS
IRMÃOS, OS PATRIARCAS,
PRIMAZES, ARCEBISPOS
E BISPOS DO ORBE CATÓLICO,
EM GRAÇA E COMUNHÃO
COM A SÉ APOSTÓLICA


Papa São Pio X

Aos nossos Veneráveis Irmãos os Patriarcas, Primazes, Arcebispos, Bispos e demais Ordinários em paz e comunhão com a Sé Apostólica: Sobre o Ensino do Catecismo.

Veneráveis Irmãos:
Saúde e Bênção Apostólica.

1.  Pelos inescrutáveis desígnios de Deus fomos elevados de nossa pequenez ao cargo de Supremo Pastor do Rebanho de Cristo, em dias bem críticos e amargos, pois o antigo inimigo anda em redor deste Rebanho e lhe arma laços em tão pérfida astúcia, que hoje, principalmente, parece haver-se cumprido aquela profecia do Apóstolo aos anciãos da Igreja de Éfeso: “Sei que... vos hão de assaltar lobos vorazes, que não pouparão o Rebanho” (At 20,29). Dos males que afligem a Religião não há quem, animado de zelo pela Glória divina, deixe de investigar as causas e razões, acontecendo que, como as encontra cada qual diversas, proponha diferentes meios, de acordo com a sua opinião pessoal, para defender e restaurar o Reino de Deus na Terra. Não proscrevemos, Veneráveis Irmãos, os pareceres alheios, mas estamos com os que pensam que esta depressão e debilidade das almas, de que derivam os maiores males, provêm, principalmente, da ignorância das Coisas Divinas. Esta opinião concorda inteiramente com o que o Deus mesmo declarou pelo Profeta Oséias: “Não há conhecimento de Deus na Terra. A maldição e a mentira, e o homicídio e o roubo e o adultério tudo inundaram; o sangue junta-se ao sangue e por causa disto a Terra se cobrirá de luto e todos os seus moradores desfalecerão” (Os 4,1-3).

Necessidade da Instrução

2.  Quão fundadas são, desgraçadamente, estas lamentações, hoje, que existe tão crescido número de pessoas, entre o Povo Cristão, que ignoram totalmente as coisas que é mister conhecer para conseguir a Salvação Eterna! Ao dizer – Povo Cristão – não nos referimos somente à plebe, ou às classes inferiores – às quais servem de escusa o acharem-se com freqüência submetidas a homens tão duros que lhes não deixam tempo nem para cuidar de si mesmas, nem das coisas que se referem à sua alma – mas e principalmente falamos daqueles aos quais não falta entendimento nem cultura e até se mostram dotados de profana erudição, apesar de que em coisas de Religião vivem da maneira mais temerária e imprudente que imaginar se possa. Dificílimo seria ponderar a espessura das trevas que os envolvem e – o que mais triste é – a tranqüilidade com que nelas permanecem! De Deus, Soberano Autor e Moderador de todas as coisas, e da Sabedoria da Fé Cristã não se preocupam, de forma que verdadeiramente nada sabem da Encarnação do Verbo de Deus, nem da Perfeita Restauração do Gênero Humano, por Ele consumada; nada sabem acerca da Graça, principal auxílio para alcançar os Bens Eternos; nada, acerca do Augusto Sacrifício nem dos Sacramentos, mediante os quais conseguimos e conservamos a Graça. Quanto ao pecado, não conhecem sua malícia nem o opróbrio que consigo traz, de sorte que não põem o menor cuidado em evitá-lo ou expiá-lo, e chegam ao Dia Extremo em disposição tal que, para não os deixar sem qualquer Esperança de Salvação, o Sacerdote se vê constrangido a aproveitar os derradeiros instantes de vida para sumariamente lhes ensinar Religião, ao invés de empregá-los principalmente, conforme conviria, em movê-los a afetos de Caridade; isto quando não sucede que o moribundo sofra de tão culpável ignorância que tenha por inútil o auxílio do Sacerdote e resolva tranqüilamente franquear os Umbrais da Eternidade sem haver prestado a Deus conta dos seus pecados. Por isso, o Nosso Predecessor Bento XIV justamente escreveu: “Afirmamos que a maior parte dos condenados às penas eternas padece sua perpétua desgraça por ignorar os Mistérios da Fé, que necessariamente se devem conhecer e crer, para ser contado no número dos eleitos” (Instit.  XXVII, 18).

ENCÍCLICA SINGULARI QUADAM - SÃO PIO X



CARTA ENCÍCLICA
SINGULARI QUADAM

DE SUA SANTIDADE PAPA PIO X

SOBRE ORGANIZAÇÕES DE TRABALHO

A TODOS OS NOSSOS VENERÁVEIS
IRMÃOS, OS PATRIARCAS,
PRIMAZES, ARCEBISPOS
E BISPOS DO ORBE CATÓLICO,
EM GRAÇA E COMUNHÃO
COM A SÉ APOSTÓLICA


Para Nosso Filho Amado, George Kopp, Padre Cardeal da Santa Igreja Romana, Bispo de Breslau, e para os outros Arcebispos e Bispos da Alemanha.

Filhos amados e Veneráveis Irmãos, Saúde e a Bênção Apostólica.

1.Nós somos movidos por sentimentos particularmente afetuosos e benevolentes em direção aos Católicos da Alemanha, que são mais lealmente e obedientemente dedicados a Sé Apostólica e acostumados a batalhar generosamente e valentemente em nome da Igreja. Nós então nos sentimos compelidos, Veneráveis Irmãos, a dedicar Nossa força e completa atenção à discussão daquele assunto que surgiu entre eles sobre as associações de trabalhadores. Relativo a esse problema, vários de vocês, como também qualificados e respeitados representantes de ambos os pontos de vista, já Nos informaram repetidamente durante os anos passados. Cientes de Nosso Ministério Apostólico, Nós estudamos este problema mais diligentemente. Nós entendemos totalmente que Nosso dever sagrado é trabalhar incessantemente para que Nossos filhos amados possam preservar o ensinamento católico não adulterado e incólume, de não permitindo de nenhuma maneira que sua Fé seja posta em perigo.

Se eles não forem persuadidos a tempo para ficar em guarda, eles obviamente iriam, gradualmente e inadvertidamente, cair no perigo de se satisfazer com uma forma vaga e indefinida de religião Cristã que tem sido ultimamente designada como intercredo. Isso não é nada além de uma recomendação vazia de um Cristianismo generalizado. Obviamente, nada é mais ao contrário aos ensinamentos de Jesus Cristo. De mais a mais, posto que Nosso desejo mais ardente é a promoção e fortificação da concórdia entre os Católicos, Nós constantemente tentamos remover todas aquelas ocasiões de disputas que dissipam a força de homens de boa vontade e que serão vantajosas apenas para os inimigos da religião. Finalmente, Nós desejamos e pretendemos que o fiel viva com seus concidadãos não-católicos naquela paz sem a qual nem a ordem de sociedade humana nem o bem-estar do Estado pode suportar.

ENCÍCLICA LIBERTAS PRAESTANTISSIMUM - LEÃO XIII



CARTA ENCÍCLICA
LIBERTAS PRAESTANTISSIMUM

DE SUA SANTIDADE 
LEÃO XIII

A TODOS OS NOSSOS VENERÁVEIS
IRMÃOS, OS PATRIARCAS,
PRIMAZES, ARCEBISPOS
E BISPOS DO ORBE CATÓLICO,
EM GRAÇA E COMUNHÃO
COM A SÉ APOSTÓLICA

SOBRE A LIBERDADE E O LIBERALISMO



Veneráveis Irmãos,
Saúde e Bênção Apostólica.

Exórdio: Excelência e conceito da liberdade.

1. A liberdade, excelente bem da natureza e exclusivo apanágio dos seres dotados de inteligência ou de razão, confere ao homem uma dignidade em virtude da qual ele é colocado entre as mãos do seu conselho e se torna senhor de seus atos. E o que, todavia, é principalmente importante nesta prerrogativa é a maneira como ela se exerce, porque do uso da liberdade nascem os maiores males, assim como os maiores bens. Sem dúvida, está no poder do homem obedecer à razão, praticar o bem, caminhar direito ao seu fim supremo. Mas pode também seguir outra direção diferente, e, seguindo espectros de bens falazes, destruir a ordem legítima e correr para uma perdição voluntária.

O libertador do gênero humano, Jesus Cristo, tendo restaurado e aumentado a antiga dignidade da nossa natureza, fez sentir sua influência principalmente sobre a vontade mesma do homem; e, pela sua graça, que lhe prodigalizou os socorros, pela felicidade eterna, de que lhe abriu a perspectiva no Céu, elevou-o a um estado melhor. E, por um motivo semelhante a Igreja bem mereceu sempre deste dom excelente da nossa natureza, e não cessará de bem merecer dele, pois que é a ela que pertence assegurar aos benefícios, que nós devemos a Jesus Cristo, a sua propagação em toda a consecução dos séculos. — E, contudo, há um grande número de homens que crêem que a Igreja é adversária da liberdade humana. A causa disto está na idéia defeituosa, e como ao avesso, que se faz da liberdade; porque, com esta mesma alteração da sua noção, ou com a exagerada extensão que se lhe dá, chega-se a aplica-la a muitas coisas, nas quais o homem, a julgar segundo a reta razão, não pode ser livre.

16 março 2016

ENCÍCLICA MIRANDA PRORSUS - PIO XII



CARTA ENCÍCLICA
MIRANDA PRORSUS

DO SANTÍSSIMO SENHOR NOSSO
POR DIVINA PROVIDÊNCIA
PIO XII PAPA

AOS VENERÁVEIS IRMÃOS
PATRIARCAS, PRIMAZES, 
ARCEBISPOS E BISPOS
E OUTROS ORDINÁRIOS DO LUGAR 
EM PAZ E COMUNHÃO 
COM A SÉ APOSTÓLICA

SOBRE A CINEMATOGRAFIA, 
A RÁDIO E A TELEVISÃO



INTRODUÇÃO

PREÂMBULO

Os maravilhosos progressos técnicos, de que se gloriam os nossos tempos, sem dúvida são fruto do engenho e do trabalho humano, mas são primeiro que tudo dons de Deus, Criador do homem e inspirador de todas as obras; "não só produziu as criaturas, mas uma vez produzidas defende-as e protege-as". [1]

Alguns destes novos meios técnicos servem para multiplicar as forças e as possibilidades físicas do homem, outros para lhe melhorarem as condições de vida, outros finalmente – e estes dizem mais respeito à vida do espírito – servem, directamente ou mediante uma expressão artística, para a difusão das ideias, e oferecem a milhões de pessoas, de maneira fàcilmente assimilável, imagens, notícias e lições, como alimento quotidiano do espírito, mesmo nas horas de lazer e repoiso.

Entre as técnicas referentes a esta última categoria, como todos sabem, alcançaram desenvolvimento extraordinário, durante o nosso século o cinema, a rádio e ùltimamente a televisão.

ENCÍCLICA VIGILANTI CURA - PAPA PIO XI



CARTA ENCÍCLICA
VIGILANTI CURA

DO SUMO PONTÍFICE
PAPA PIO XI

AOS VENERÁVEIS IRMÃOS ARCEBISPOS, 
BISPOS E DEMAIS ORDINÁRIOS 
DOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA, 
EM PAZ E COMUNHÃO COM A SÉ APOSTÓLICA

SOBRE O CINEMA



Veneráveis Irmãos
Saudação e Bênção Apostólica

Elogio da "Legião da decência"

1. Acompanhamos com vigilante solicitude, como exige o Nosso ministério apostólico, cada obra dos venerandos antístites e de todo o povo cristão; por isto Nos foi sumamente consoladora a notícia de ter já sazonado frutos salutares e porfiar ainda mais ricas vantagens aquela providente iniciativa, que fundastes há mais de dois anos e cuja realização confiastes de modo especial à "Legião da Decência", com o fito de, qual santa cruzada, reprimir os abusos das representações cinematográficas.

2. Isso Nos oferece o ensejo, há tanto tempo almejado, de externar mais amplamente Nosso parecer sobre este assunto, relacionado tão de perto com a vida moral e religiosa de todo o povo cristão. Antes de tudo Nos congratulamos convosco por ter esta Legião, guiada e instruída por vós e apoiada pela valiosa cooperação dos fiéis, já prestado, neste setor do apostolado, tão relevantes serviços; alegria tanto mais intensa quanto, angustiados, registrávamos que a arte e indústria do cinema chegara, por assim dizer, "em grandes passos fora do caminho", ao ponto de mostrar a todos, em imagens luminosas, os vícios, crimes e delitos.

I – O cinema e a moral cristã

Zelo da Sé Apostólica neste campo

3. Cada vez que se Nos oferecia uma ocasião propícia, consideramos ser um dever de Nosso altíssimo ofício dirigirmo-Nos ao Episcopado e outros membros do Clero, e também a todos os homens de reta e boa vontade, a fim de se preocuparem com este problema de suma importância.

O cinema precisa colocar-se a serviço do aperfeiçoamento do homem

4 . Já na encíclica "Divini illius magistri", lamentamos "que tais poderosos meios de divulgação, que podem ser, quando inspirados por princípios sãos, de grande utilidade para a instrução e educação, são muitas vezes desgraçadamente subordinados ao fomento dos instintos maus, à avidez do lucro". (A. A. S., 1930, p. 82). Em agosto de 1934, dirigindo-Nos, numa audiência, a uma deputação da Federação Internacional do Trabalho da Imprensa Cinematográfica, depois de ter mostrado a grande importância que esta espécie de espetáculo tomou em nossos dias, e sua influência tão intensa, quer para promover o bem, quer para insinuar o mal, lembrávamos que a todo custo se devia aplicar ao cinema, para que ele não injuriasse e desacreditasse a moral cristã, ou simplesmente a moral humana e natural, a regra suprema que deve reger e regulamentar o grande dom da arte.

Toda a arte nobre tem como fim e como razão-de-ser, tornar-se para o homem um meio de se aperfeiçoar pela probidade e virtude; e por isso mesmo deve ater-se aos princípios e preceitos da moral. E concluíamos, com a aprovação manifesta daquelas pessoas de elite – ainda Nos é consolador relembrar – ser necessário tornar o cinema conforme às normas retas, de modo que possa levar os espectadores à inteireza da vida e uma verdadeira educação.

5. E ainda recentemente, no mês de abril último, recebendo em audiência um grupo de delegados do Congresso Internacional da Imprensa do Cinema, realizado em Roma, expúnhamos de novo o gravíssimo problema e exortávamos com ardor todas as pessoas cordatas, não só em nome da religião, mas também em nome do verdadeiro bem-estar moral e civil dos povos, de envidar todos os esforços, de usar de todos os meios, principalmente da imprensa, para que o cinema se torne cada vez mais um elemento precioso de instrução e de educação, e não de destruição e de ruína para as almas.

Necessidade de diretrizes para a igreja universal

6. Mas o assunto é de tal importância, principalmente nas condições atuais da sociedade, que julgamos necessário tratá-lo de novo, nesta carta, e desenvolvê-lo mais circunstancialmente, traçando diretrizes que correspondam às necessidades presentes, válidas não só para vós, Veneráveis Irmãos, mas também para todos os Bispos do orbe católico. Com efeito, é mui necessário e urgente cuidar para que os progressos da ciência e da arte, e mesmo das artes da indústria técnica, verdadeiros dons de Deus, sejam dirigidos de tal modo à glória de Deus, à salvação das almas, à extensão do reino de Jesus Cristo sobre a terra, que todos, como a Igreja nos faz rezar, "aproveitemos os bens temporais de modo a não perder os bens eternos". Ora, facilmente todos podem verificar que os progressos do cinema, quanto mais maravilhosos se tornam, mais perniciosos foram para a moralidade e para a religião, e mesmo para a honestidade do Estado civil.

Preocupação dos próprios diretores da indústria cinematográfica

7. Os próprios diretores desta indústria, nos Estados Unidos, reconheceram-no quando a esse respeito confessaram sua responsabilidade perante os indivíduos e a sociedade. Em março de 1930, por um ato livre, feito de comum acordo ratificado por suas assinaturas e promulgado pela imprensa, tomaram o compromisso solene de proteger no futuro a moralidade dos freqüentadores do cinema. Em virtude dessa promessa, comprometeram-se expressamente a nunca exibir um filme que rebaixasse o senso moral dos espectadores, que ferisse a lei natural e humana ou que mostrasse simpatia pela violação da mesma.

Frustrados estes esforços

8. No entanto, apesar desta prudente determinação tomada espontaneamente, os responsáveis e os fabricantes de filmes não puderam ou formalmente não quiseram submeter-se aos princípios a cuja observância se tinham obrigado. Tendo este compromisso sido quase nulo e prosseguindo a exibição do vício e do crime no cinema, todo homem probo, que procura uma honesta diversão, vê-se as mais das vezes obrigado a ficar longe destes espetáculos.

O exemplo dos bispos dos E.U. "Legião da decência"

9. Nesta gravíssima situação, Veneráveis Irmãos, fostes vós os primeiros a estudar o meio de defender contra o perigo iminente as almas confiadas aos vossos cuidados; instituístes a "Legião da Decência" como uma cruzada santa, fundada para reanimar enfim os ideais da honestidade moral e cristã. Muito longe de vós esteve a idéia de prejudicar a indústria do cinema; pelo contrário, vós a preservastes antes contra as ruínas, às quais são expostas as formas recreativas que degeneram em corrupção da arte.

O apoio dos católicos

10. Vossas diretrizes suscitaram a adesão pronta e dedicada dos fiéis que dirigis. E milhões de católicos dos Estados Unidos subscreveram os compromissos da "Legião da Decência", obrigando-se a não assistir a representações cinematográficas que ofendessem a moral cristã e as regras de uma vida honesta. Podemos dizer com imensa alegria: vimos o vosso povo colaborar em tão boa harmonia com os bispos na execução deste programa, como jamais nestes últimos tempos Nos foi dado ver mais íntima união entre ambos.

O apoio de cristãos e de outros grupos

11. E não só os filhos da Igreja Católica, mas distintos protestantes e ilustres israelitas e muitos outros aceitaram a vossa iniciativa; uniram-se aos vossos esforços para dar ao cinema normas que condigam com tão nobre arte e a moral. Conforta-Nos muito assinalar o sucesso notável desta cruzada, pois que, segundo Nos foi referido, sob a vossa vigilância e sob a pressão da opinião pública o cinema mostrou um progresso no terreno moral. Crimes e vícios foram reproduzidos menos freqüentemente do que antes; o pecado não foi aprovado e aclamado tão abertamente; não mais se apresentaram de maneira tão impressionante falsas normas de vida ao espírito impressionável e facilmente excitado da mocidade.

Resposta às críticas

12. Embora em certos meios se tenha predito que o valor artístico do cinema sofreria pelas exigências da "Legião da Decência", parece ter sucedido exatamente o contrário. Pois esta Legião deu forte impulso aos esforços feitos para elevar cada vez mais o cinema a grande nobreza de nível artístico, impelindo-o à produção de obras clássicas e a criações originais de valor pouco comum.

13. Também os que colocaram seu dinheiro na indústria cinematográfica não tiveram prejuízo com isso, como alguns, sem provar com razões suficientes sua asserção, agouraram; pois não poucos, que aborreciam o cinema por ofender a moral, recomeçaram a freqüentar estes espetáculos, desde que se exibiram filmes com enredos que não desdizem nem da probidade humana nem da moral cristã.

14. No começo da vossa cruzada, Veneráveis Irmãos, dizia-se que estes esforços seriam de curta duração e seus efeitos transitórios, porque, relaxando a vossa vigilância e a dos vossos fiéis, os industriais voltariam a seu talante aos processos anteriores. É fácil compreender por que alguns desejavam voltar às produções equívocas que excitam as paixões inferiores e que proibistes. Enquanto a produção de figuras realmente artísticas, de cenas humanas e ao mesmo tempo virtuosas exige um esforço intelectual, trabalho, habilidade e também uma despesa grande, é relativamente fácil provocar certa categoria de pessoas e de classes sociais com representações que excitam as paixões e despertam os instintos inferiores, latentes no coração humano.

Perseverar no esforço iniciado e bem sucedido

15. Uma vigilância incessante e universal deve convencer de vez aos produtores de que a "Legião da Decência" não foi fundada para ter só uma curta duração, mas que, sob os auspícios dos Bispos dos Estados Unidos, as diversões honestas do povo em qualquer tempo e sob qualquer aspecto com todo empenho sejam salvaguardadas.

II. Influência do Cinema e Fiscalização

Necessidade do lazer, mas sadio e moral

16. Não há negar que o recreio corporal e espiritual, em suas múltiplas manifestações do progresso moderno, tornou-se necessário para os que se cansam nas ocupações e cuidados da vida, mas ele deve ser digno e por isto são e moral; deve elevar-se ao nível de fator positivo de nobres sentimentos. Um povo que, em seus momentos de repouso, se entrega a prazeres que ferem o pudor, a honra, a moral, divertimentos que constituem uma ocasião do pecado, especialmente para a mocidade, corre o perigo de perder sua grandeza e seu poder.

Importância do cinema como divertimento

17. É indiscutível que, entre estes divertimentos, o cinema adquiriu, nos tempos modernos, uma importância máxima, por ter-se estendido a todas as nações. Não é necessário registrar que milhões de pessoas diariamente assistem às representações do cinema; que se abrem locais para semelhantes espetáculos cada vez em maior número, em meio de todos os povos de alta cultura ou só meio civilizados; que o cinema se tornou a forma mais popular de recreação, não só para os ricos, mas para todas as classes da sociedade.

O poder de influência do cinema

18. Não há hoje um meio mais poderoso para exercer influência sobre as massas, quer devido às figuras projetadas nas telas, quer pelo preço do espetáculo cinematográfico, ao alcance do povo comum, e pelas circunstâncias que o acompanham.

A força da imagem aliada à música

19. O poder do cinema provém de que ele fala por meio da imagem, que a inteligência recebe com alegria e sem esforço, mesmo se tratando de uma alma rude e primitiva, desprovida de capacidade ou ao menos do desejo de fazer esforço para a abstração e a dedução que acompanha o raciocínio. Para a leitura e audição, sempre se requer atenção e um esforço mental que, no espetáculo cinematográfico, é substituído pelo prazer continuado, resultante da sucessão de figuras concretas. No cinema falado, este poder atua ainda com maior força, porque a interpretação dos fatos se torna muito fácil e a música ajunta um novo encanto à ação dramática. Se nos entreatos se acrescentam danças e variedades, as paixões recebem excitações das mais perigosas, que avultam vertiginosamente.

O cinema como lição de coisas

20. A cinematografia realmente é para a maioria dos homens uma lição de coisas que instrui mais eficazmente no bem e no mal, do que o raciocínio abstrato. É, pois, necessário que o cinema, erguendo-se ao nível da consciência cristã, sirva à difusão dos seus ideais e deixe de ser um meio de depravação e de desmoralização.

Os malefícios dos maus filmes

21. É geralmente sabido o mal enorme que os maus filmes produzem na alma. Por glorificarem o vício e as paixões, são ocasiões de pecado; desviam a mocidade do caminho da virtude; revelam a vida debaixo de um falso prisma; ofuscam e enfraquecem o ideal da perfeição; destroem o amor puro, o respeito devido ao casamento, as íntimas relações do convívio doméstico. Podem mesmo criar preconceitos entre indivíduos, mal-entendidos entre as várias classes sociais, entre as diversas raças e nações.

Os bons filmes e seus frutos

22. As boas representações podem, pelo contrário, exercer uma influência profundamente moralizadora sobre seus espectadores. Além de recrear, podem suscitar uma influência profunda para nobres ideais da vida, dar noções preciosas, ministrar amplos conhecimentos sobre a história e as belezas do próprio país, apresentar a verdade e a virtude sob aspecto atraente, criar e favorecer, entre as diversas classes de uma cidade, entre as raças e entre as várias famílias, o recíproco conhecimento e amor, abraçar a causa da justiça, atrair todos à virtude e coadjuvar na constituição nova e mais justa da sociedade humana.

Aspectos que esclarecem a força dos filmes:

a) exibidos para grandes grupos

23. Estas Nossas observações são tanto mais graves por falar uma representação de cinema não a pessoas separadas, e sim a grandes reuniões, e isto em condições de lugar e tempo que podem levar a um entusiasmo depravado, como também a um ardor ótimo; entusiasmo que pode chegar a uma louca e geral concitação, que pela experiência tão bem conhecemos.

b) em salas semi-obscuras

24. As figuras cinematográficas são mostradas a pessoas sentadas em meia-escuridão e cujas faculdades mentais, e mesmo forças espirituais, estão freqüentemente descontroladas. Não é necessário ir longe para encontrar essas salas; estão em geral ao lado das casas, das igrejas e dos grupos escolares, levando assim o cinema ao meio da vida a sua influência suma e suma importância.

c) a sedução dos atores e atrizes

25. As variadíssimas cenas no cinema são representadas por homens e mulheres escolhidos sob o critério da arte e de um conjunto de qualidades naturais, e que se exibem num aparato tão deslumbrante a se tornarem às vezes uma causa de sedução, principalmente para a mocidade. O cinema ainda tem a seu serviço a música, as salas luxuosas, o realismo vigoroso, todas as formas do capricho na extravagância. E por isso seu encanto se exerce com um atrativo particular sobre as crianças e os adolescentes. Justamente na idade, na qual o senso moral está em formação, quando se desenvolvem as noções e os sentimentos de justiça e de retidão, dos deveres e das obrigações, do ideal da vida, é que o cinema toma uma posição preponderante.

De fato, geralmente a serviço do mal

26. E, infelizmente, no atual estado de coisas, é geralmente para o mal que o cinema exerce sua influência. Quando pensamos na ruína de tantas almas especialmente de moços e de crianças, cuja integridade e castidade periga nas salas de cinema, vem à Nossa mente a terrível sentença de Nosso Senhor contra os corruptores dos pequenos: "O que escandalizar um destes pequeninos que crêem em mim, melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço a mó que um asno faz girar e que o lançassem no fundo do mar". (Mt 18, 6 ). É uma das supremas necessidades do nosso tempo fiscalizar e trabalhar com todo afinco para que o cinema não seja uma escola de corrupção, mas que se transforme em um precioso instrumento de educação e de elevação moral.

Preocupação dos governos

27. Aqui lembramos com viva satisfação que certos governos, preocupados com a influência do cinema no domínio moral e educativo, criaram, por meio de pessoas probas e honestas, principalmente com pais e mães de família, comissões especiais de censura, como também organismos indicadores para a produção cinematográfica, orientando sua inspiração para obras nacionais de seus grandes poetas e escritores.

Os bispos e católicos dos outros países sigam o exemplo

28. Assim, se é sobremaneira conveniente que vós, Veneráveis Irmãos, exerçais uma vigilância especial sobre a indústria cinematográfica em vosso país, a qual por causa de seu vigoroso desenvolvimento exerce grande influência nas outras partes do mundo, é também dever dos Bispos de todo o orbe católico unirem-se para fiscalizar esta universal e poderosa forma de diversão e de ensino, para fazer prevalecer como motivo de proibição do mau cinema, a ofensa feita ao sentimento religioso e moral e a tudo que é contrário ao espírito cristão e a seus princípios éticos, não se cansando de combater tudo que contribui para enfraquecer ou extinguir no povo o sentimento da decência e da honra. É um dever que compete não somente aos Bispos, mas também a todos os católicos e a todos os homens honestos que amam a dignidade e a saúde moral da família, da nação, e em geral da sociedade humana.

III. Meios de Vigilância e Censura

Vigilância difícil quanto à produção dos filmes

29. Em que consiste, para o momento presente, esta vigilância? O problema da produção de filmes morais seria radical e felizmente resolvido, se fosse possível obter uma produção cinematográfica, inspirada completamente nos princípios da moral cristã. Por este motivo, não Nos cansaremos de louvar aqueles que se consagraram e se consagrarão ao nobre intuito de elevar a cinematografia à função de educação humana e às exigências da consciência cristã. Empreendam isto com a competência de técnicos e não de meros diletantes, para evitar prejuízo de dinheiro e de energia.

Necessidade de vigiar os filmes que estão nas telas

30. Por ser, porém, como Nós bem o sabemos, muito difícil organizar uma tal indústria, principalmente por motivos de ordem financeira, e como, de outro lado, é necessário exercer influência sobre todos os filmes para que não haja ação prejudicial, no que diz respeito à religião, moral e sociedade civil, é necessário que os pastores de almas se interessem pelos filmes que estão atualmente ao alcance do povo cristão.

Apelo aos diretores, autores e atores católicos

31. Quanto à indústria dos filmes, exortamos ardentemente aos Bispos de todos os países produtores, e especialmente a vós, Veneráveis Irmãos, a fazer um apelo a todos os católicos que de qualquer forma participam desta indústria. Eles devem pensar seriamente nos seus deveres e nas responsabilidades que têm como filhos da Igreja; devem usar de seu empenho para reproduzir nos filmes que produzem, ou que ajudam a produzir, princípios sãos e morais. O número de católicos executores ou diretores, autores e atores nos filmes não é pequeno, e infelizmente sua influência na confecção dos filmes nem sempre foi de acordo com a sua fé e suas idéias. Será dever dos bispos estimulá-los a fazer concordar sua profissão com a consciência de homens respeitáveis e discípulos de Jesus Cristo. Aí, como em todos os campos de apostolado, os pastores de almas certamente encontrarão excelentes colaboradores nos que militam nas fileiras da Ação Católica, aos quais nesta Carta Encíclica fazemos ardoroso apelo para que dêem seu concurso sem tréguas e sem desfalecimento também a esta campanha.

Deveres dos bispos

32. Periodicamente os bispos farão bem em relembrar à indústria cinematográfica que, entre as preocupações de seu ministério pastoral, está a obrigação de se interessarem por todas as formas de diversão sã e honesta, porque são responsáveis diante de Deus pela moralidade do povo, a eles confiado, mesmo quando se diverte. O ministério sagrado que exercem força-os a dizer clara e abertamente que um divertimento impuro destrói as fibras morais de uma nação. O que lhes pedem não diz respeito somente aos católicos, mas a todo o público que freqüenta o cinema. Vós, em particular, Veneráveis Irmãos, vós podeis procurar obter dos produtores de filmes este fito, lembrando que eles, nos Estados Unidos, livremente se comprometeram a tomar por si a grave responsabilidade que têm perante a sociedade.

33. Os bispos do mundo inteiro, porém, devem esforçar-se para esclarecer os industriais do cinema, fazendo-os compreender que uma força tão poderosa e universal pode ser dirigida utilmente para um fim muito elevado, como seia o aperfeiçoamento individual e social da humanidade. E não é só questão de evitar o mal. Os filmes nao devem somente ocupar as horas vagas de lazer, mas podem e devem, por sua força magnífica, ilustrar as mentes dos espectadores e dirigi-los positivamente para todas as virtudes.

Indicações práticas:

1. compromisso anual dos católicos

34. Dada a importância da matéria, julgamos oportuno traçar algumas indicações práticas. Antes de tudo, todos os pastores de almas se esforçarão por obter dos fiéis que façam anualmente, como os católicos dos Estados Unidos da América, a promessa de se absterem dos filmes que ofendem a verdade e as instituições cristãs. Este compromisso pode ser obtido de modo mais eficaz por meio da Igreja paroquial ou das escolas; e para este fim os bispos reclamarão a diligente cooperação dos pais e das mães de família, que têm, nesta matéria, graves deveres e responsabilidades. Igualmente podem usar da imprensa católica, que mostrará, com afinco e proveito, a importância desta santa cruzada.

2. boletins regulares com a classificação dos filmes

35. A execução dessa promessa solene requer que o povo conheça claramente quais os filmes permitidos a todos, quais os filmes permitidos com reserva, quais os filmes prejudiciais ou positivamente maus. Isto exige confecção de listas e sua publicação regular, em forma de boletins, em que, a miúdo, se classifiquem os filmes em forma acessível a todos.

36. Seria para desejar que se pudesse formar uma lista para o mundo inteiro, porque a mesma lei moral está em vigor para todos. Mas, como se trata de publicações que interessam a todos os ramos da sociedade, sábios e ignorantes, ao povo e governos, o juízo sobre um filme não pode ser o mesmo em toda parte. Realmente, as circunstâncias e formas de vida variam em todos os países: não seria por isto prático estabelecer uma só lista para o mundo inteiro. Se cada nação conseguir uma lista com a classificação dos filmes, como indicamos mais acima, já se terá obtido em princípio a direção desejada.

3. criação de juntas nacionais e suas funções:

Produção e classificação de filmes

37. Para este fim, é imprescindivelmente necessário que os bispos criem, em cada país, uma Junta Nacional permanente de revisão, que promova a produção de bons filmes, classifique os outros e divulgue o julgamento ao clero e fiéis. Essa junta seria, com grande proveito, ligada aos organismos centrais da Ação Católica, que está, como é do conhecimento geral, na dependência imediata dos Bispos. Esta obra revisora, para surtir os efeitos infalível e ordenadamente, deve, em cada nação, representar uma unidade e ser administrada centralmente.

38. Naturalmente, por motivos ponderosos, os Bispos, nas suas respectivas dioceses e por meio de sua comissão diocesana, poderão aplicar critérios mais severos à lista nacional feita com normas mais gerais, conforme as condições da sua região, mesmo vetando os filmes já admitidos na lista geral pela razão de ter que estabelecer normas válidas para toda a nação.

Organização e coordenação de salas de cinema

39. Esta junta deve ter também a incumbência de organizar salas de cinemas existentes na paróquia e nas associações católicas, de maneira a garantir a essas salas filmes selecionados. Devido à organização dessas salas que se tornam bons clientes para a indústria cinematográfica, pode-se alcançar que essa indústria produza filmes correspondentes completamente a nossos princípios, filmes, que serão depois fornecidos não só às salas católicas, mas também a todas as outras.

40. Compreendemos que a instituição de semelhante junta exige dos fiéis não poucos sacrifícios e despesas. Mas a importância do cinema e a necessidade de proteger a pureza dos costumes do povo cristão e a moralidade da nação inteira, exigem terminantemente essa despesa e trabalho. A eficiência poderosa de nossas escolas, de nossas associações de Ação Católica e mesmo do sagrado ministério está diminuída e posta em perigo pela chaga dos maus cinemas, tão prejudiciais.
A estruturação das juntas nacionais

41. A junta deve ser formada por pessoas conhecedoras da técnica cinematográfica e bem firmes nos princípios morais da doutrina católica; devem ser estas pessoas dirigidas por um padre escolhido pelo bispo. Um acordo oportuno ou troca de informações entre os centros dos diversos países poderão tornar mais eficaz e harmoniosa a obra de revisão dos filmes, tomando na devida consideração as diversas condições e circunstâncias. Só assim será possível conseguir, com o auxílio dos escritores católicos, esta admirável unidade no sentir, julgar e agir.

Compreensão e apoio dos bispos

42. Os centros devem inspirar-se oportunamente não só nas experiências já adquiridas pelos Estados Unidos, mas também nos trabalhos realizados pelos católicos do mundo inteiro. Se os membros componentes destes diversos centros caíssem em erro, embora com as melhores intenções, o que acontece com todas as coisas humanas, os Bispos tratarão, com sua prudência pastoral, de reparar estes erros e ao mesmo tempo amparar quanto possível a autoridade e estima dos referidos centros, reforçando-os com outros companheiros de autoridade, ou substituindo os que se revelarem incapazes.

Frutos que advirão da vigilância dos bispos

43. Se os bispos do mundo aceitarem a responsabilidade para exercer esta vigilância onerosa sobre o cinema, do que não duvidamos, pois conhecemos seu zelo pastoral, poderão fazer uma grande obra para proteção da moralidade do povo nos momentos de repouso. Assim procedendo, terão a seu favor a aprovação e a cooperação de todos os espíritos bem formados, católicos e não-católicos; contribuirão para o progresso desta grande potência internacional, que é o cinema, com a elevada intenção de promover o melhor ideal e as regras de uma vida mais santa.

A bênção apostólica

44. Para dar maior força a estes votos que dimanam do Nosso coração paternal, inploramos o auxílio da graça divina, como penhor da qual Nós vos concedemos, com efusão de nossa alma, a vós, Veneráveis Irmãos, e a vosso clero e ao povo a vós confiado, a Bênção Apostólica.

Dado em Roma, junto a S. Pedro, dia 29 de junho, festa dos santos Apóstolos Pedro e Paulo, no ano de 1936, décimo quinto ano do Nosso Pontificado.

PIUS PP. XI

ENCÍCLICA - DIVINI ILLIUS MAGISTRI - PIO XI



CARTA ENCÍCLICA
DIVINI ILLIUS MAGISTRI

DE SUA SANTIDADE
PAPA PIO XI

AOS PATRIARCAS, PRIMAZES, 
ARCEBISPOS, BISPOS
E OUTROS ORDINÁRIOS 
EM PAZ E COMUNHÃO 
COM A SANTA SÉ APOSTÓLICA
E A TODOS OS FIÉIS DO ORBE CATÓLICO

ACERCA DA EDUCAÇÃO CRISTÃ
DA JUVENTUDE



Veneráveis Irmãos
e Amados filhos
Saúde e Bênção Apostólica

INTRODUÇÃO

REPRESENTANTE na terra d'Aquele Divino Mestre que, apesar de abraçar com a imensidade do seu amor a todos os homens, mesmo os pecadores e indignos, mostrou no entanto amar com ternura muito peculiar as crianças, exprimindo-se por aquelas tão comoventes palavras: « deixai vir a mim as criancinhas »(1), Nós temos procurado mostrar também em todas as ocasiões a predileção verdadeiramente paternal que lhes consagramos, especialmente com os assíduos cuidados e oportunos ensinamentos que se referem à educação cristã da juventude.

a) Motivos da publicação desta Encíclica

Deste modo, fazendo-Nos eco do Divino Mestre, temos dirigido salutares palavras, ora de advertência, ora de incitamento, ora de direção, não só aos jovens e aos educadores, mas também aos pais e mães de família, acerca de vários problemas da educação cristã, com aquela solicitude que convém ao Pai comum de todos os fiéis, e com a oportuna e importuna insistência que é própria do ofício pastoral, (2) recomendada pelo Apóstolo : « Insiste no tempo quer oportuno quer importuno : repreende, exorta, admoesta, com grande paciência e doutrina », reclamada pelos nossos tempos em que infelizmente se deplora uma tão grande falta de claros e sãos princípios, até acerca dos mais fundamentais problemas.

Porém, a mesma condição geral dos tempos, a que aludimos, as variadas discussões do problema escolar e pedagógico nos diversos países, e o conseqüente desejo que muitos d'entre vós e dos vossos fiéis Nos tendes manifestado com filial confiança, Veneráveis Irmãos, e o Nosso tão intenso afecto para com a juventude, como dissemos, impelem-Nos a voltar mais propositadamente ao assunto, senão para o tratar em toda a sua quase inexaurível amplitude de doutrina e de prática, pelo menos para reassumir os seus princípios supremos, pôr em evidencia as suas principais conclusões, e indicar as aplicações praticas dos mesmos.

CARTA ENCÍCLICA - AD DIEM ILLUM LAETISSIMUS - SÃO PIO X



CARTA ENCÍCLICA
AD DIEM ILLUM LAETISSIMUS

DE SUA SANTIDADE PAPA PIO X

SOBRE A IMACULADA CONCEIÇÃO

A TODOS OS NOSSOS VENERÁVEIS
IRMÃOS, OS PATRIARCAS,
PRIMAZES, ARCEBISPOS
E BISPOS DO ORBE CATÓLICO,
EM GRAÇA E COMUNHÃO
COM A SÉ APOSTÓLICA


Papa São Pio X

Aos nossos Veneráveis Irmãos os Patriarcas, Primazes, Arcebispos, Bispos e demais Ordinários em paz e comunhão com a Sé Apostólica: Sobre o Cinqüentenário da Proclamação do Dogma da Imaculada Conceição.

Veneráveis Irmãos, Saúde e Benção Apostólica

1. O curso do tempo nos levará, dentro em poucos meses, a esse dia de inigualável alegria no qual, circundado duma coroa magnífica de cardeais e bispos, há cinqüenta anos, Nosso Predecessor Pio IX, pontífice de santa memória, por virtude da autoridade do magistério infalível declarou e proclamou ser de revelação divina que Maria foi totalmente isenta da mácula original, desde o primeiro instante de sua conceição. E não há quem ignore que todos os fiéis do universo acolheram esta proclamação com tal disposição de ânimo, com arroubos tais de júbilo e entusiasmo que jamais houve, na memória de todos os tempos, manifestação de piedade tão grandiosa e tão unânime, quer para com a augusta Mãe de Deus, quer para com o Vigário de Jesus Cristo — Hoje, Veneráveis Irmãos, muito embora à distância de meio século, não podemos nós esperar que a lembrança reavivada da Virgem Imaculada desperte em nossas almas como que um eco dessas santas alegrias e renove as demonstrações grandiosas de fé e de amor à augusta Mãe de Deus que se manifestaram nesse passado já longínquo? Um sentimento, que sempre nutrimos em Nosso coração, de piedade para com a Bem-aventurada Virgem e de profunda gratidão por seus benefícios, no-lo faz desejar ardentemente. O que, entretanto, Nos dá segurança disto é o zelo dos católicos, sempre alerta e pronto a dar novas provas de honra e de amor à Virgem excelsa. Não queremos, contudo, dissimular algo que em Nós aviva grandemente este desejo: é que se Nos afigura, segundo um pressentimento secreto de Nosso coração, que podemos esperar, em um futuro pouco distante, a realização das grandes esperanças, por certo não temerárias, que a definição solene do dogma da Imaculada Conceição de Maria despertou em Nosso predecessor Pio IX e em todo o Episcopado católico.

15 março 2016

CARTA ENCÍCLICA - CASTI CONNUBII - PIO XI



CARTA ENCÍCLICA
CASTI CONNUBII

DE SUA SANTIDADE PAPA PIO XI

ACERCA DO MATRIMÔNIO CRISTÃO

A TODOS OS NOSSOS VENERÁVEIS
IRMÃOS, OS PATRIARCAS,
PRIMAZES, ARCEBISPOS
E BISPOS DO ORBE CATÓLICO,
EM GRAÇA E COMUNHÃO
COM A SÉ APOSTÓLICA


Aos Veneráveis Irmãos Patriarcas, Primazes, Arcebispos, Bispos a outros Ordinários em paz e comunhão com a Sé Apostólica: acerca do Matrimônio Cristão em face das atuais condições, exigências, erros e vícios da família e da sociedade.

PAPA PIO XI.

Veneráveis Irmãos:

Saudação e bênção apostólica.

1. Quão grande seja a dignidade da casta união conjugal, podemos principalmente reconhecê-lo, Veneráveis Irmãos, pelo fato de Cristo, Nosso Senhor, Filho do Pai Eterno, tendo tornado a carne do homem decaído, não só ter incluído, de forma particular, o matrimônio — princípio e fundamento da sociedade doméstica e até de toda a sociedade humana — naquele desígnio de amor por que realizou a universal restauração do gênero humano; mas, depois de o ter reintegrado na pureza primitiva de sua divina instituição, tê-lo elevado à dignidade de verdadeiro e “grande” (Ef 5, 32) sacramento da Nova Lei, confiando, por isso, toda a sua disciplina e cuidado à Igreja, Sua Esposa.

2. Para que, todavia, esta renovação do matrimônio produza, em todos os povos do mundo inteiro e de todos os tempos, os seus desejados frutos, é preciso, primeiro, que as inteligências humanas se esclareçam acerca da verdadeira doutrina de Cristo a respeito do matrimônio; e convém ainda que os esposos cristãos, fortificada a fraqueza da sua vontade pela graça interior de Deus, façam concordar todo o seu modo de pensar e de proceder com essa puríssima lei de Cristo, pela qual assegurarão a si próprios e à sua família a verdadeira felicidade a paz.

14 março 2016

CARTA ENCÍCLICA - SUPREMI APOSTOLATUS OFFICIO - PAPA LEÃO XIII

CARTA ENCÍCLICA 

SUPREMI APOSTOLATUS OFFICIO

DE SUA SANTIDADE 
PAPA LEÃO XIII 

A TODOS OS NOSSOS VENERÁVEIS
IRMÃOS, OS PATRIARCAS,
PRIMAZES, ARCEBISPOS
E BISPOS DO ORBE CATÓLICO,
EM GRAÇA E COMUNHÃO
COM A SÉ APOSTÓLICA

SOBRE O ROSÁRIO DE NOSSA SENHORA



Veneráveis Irmãos,
Saúde e Bênção Apostólica.

O auxílio de Maria nos males presentes da Igreja 

1. O ofício do Sumo Pontificado, que Nós exercemos, e a dificílima condição dos tempos presentes, cada dia mais nos induzem e como que nos impelem a prover com tanto maior solicitude à tutela e à incolumidade da Igreja, quanto mais graves são as suas provações. Por isto, enquanto, com todas as forças, nos aplicamos a salvaguardar por todos os modos os direitos da Igreja, e a prevenir e afastar os perigos que ou estão iminentes ou já a rondam, sem trégua nos aplicamos a invocar os celestes auxílios, persuadidos de que só com estes a Nossa obra è as Nossas solicitudes poderão conseguir o êxito desejado.

CARTA ENCÍCLICA - SUPERIORE ANNO - PAPA LEÃO XIII

CARTA ENCÍCLICA

SUPERIORE ANNO

DE SUA SANTIDADE
PAPA LEÃO XIII

A TODOS OS NOSSOS VENERÁVEIS
IRMÃOS, OS PATRIARCAS,
PRIMAZES, ARCEBISPOS
E BISPOS DO ORBE CATÓLICO,
EM GRAÇA E COMUNHÃO
COM A SÉ APOSTÓLICA

SOBRE O ROSÁRIO DE NOSSA SENHORA 



Veneráveis Irmãos,
Saúde e Bênção Apostólica.

Correspondência ao convite do ano passado

1. O ano passado, como todos sabem, com uma Encíclica Nossa dispusemos que durante todo o mês de Outubro, em toda parte do orbe católico, se honrasse por meio do santo Rosário a grande Mãe de Deus, para obter dela um eficaz socorro nas angústias de que a Igreja estava oprimida. Com isso secundamos uma inspiração Nossa, e seguimos o exemplo dos Nossos Predecessores, os quais, nos tempos mais difíceis para a Igreja, tiveram o costume de, com aumentado ardor de piedade, recorrer à Virgem augusta, e de com fervorosa prece invocar-lhe o auxílio.

2. A solicitude e o consenso em secundar a Nossa vontade foram tais por toda parte, que se tornou evidente o quanto é intenso no povo cristão o espírito da religião e da piedade, e o quanto é viva a confiança de todos no celeste auxílio de Maria Santíssima. Este fervor em professar a própria piedade e a própria fé trouxe, certamente, um grande conforto ao Nosso coração, oprimido por tantas preocupações graves e por tantos males; antes, deu-nos força para suportar, se Deus assim quiser, males ainda piores. De feito, enquanto o espírito de oração se derramar sobre a casa de David e sobre os habitantes de Jerusalém, nutrimos segura esperança de que, um dia, Deus se nos mostrará aplacado, e de que, movido a compaixão pela sorte da sua Igreja, atenderá às orações elevadas pelos fiéis por meio daquela que Ele quis administradora das graças celestes.

CARTA ENCÍCLICA - OCTOBRI MENSE - PAPA LEÃO XIII

CARTA ENCÍCLICA 

OCTOBRI MENSE 

DE SUA SANTIDADE
PAPA LEÃO XIII

A TODOS OS NOSSOS VENERÁVEIS
IRMÃOS, OS PATRIARCAS,
PRIMAZES, ARCEBISPOS
E BISPOS DO ORBE CATÓLICO,
EM GRAÇA E COMUNHÃO
COM A SÉ APOSTÓLICA

SOBRE O ROSÁRIO DE NOSSA SENHORA



Veneráveis Irmãos,
Saúde e Bênção Apostólica.

Convite ao Rosário

1. Ao aproximar-se o mês de Outubro, já agora consagrado à beatíssima Virgem, é para Nós coisa sumamente grata relembrar as solícitas recomendações que, nos anos precedentes, vos dirigimos, ó Veneráveis Irmãos, a fim de que em toda parte os fiéis, impelidos pelo vosso zelo autorizado, se volvessem, com reavivada piedade, para a grande Mãe de Deus, para a poderosa auxiliadora do povo cristão; a ela recorrendo suplicantes, durante o mês inteiro, com o rito do santo Rosário: Rosário que a Igreja habitualmente usou e divulgou, sobretudo nos tempos mais tempestuosos; e sempre com o desejado êxito.

2. Temos a peito manifestar-vos, também este ano, o mesmo desejo, e renovar-vos a mesma exortação. Impele-nos a isto urgentemente, e a isso nos estimula, o Nosso amor à Igreja, cujas angústias, antes que se aligeirarem, crescem cada dia mais em número e em aspereza.

Males que afligem a Igreja

3. A todos são conhecidos os males que Nós deploramos: a luta desapiedada contra os sagrados e intangíveis dogmas, que a Igreja guarda e transmite; a zombaria da integridade da virtude cristã, que a Igreja defende; a trama de calúnias de mil modos urdidas; o ódio fomentado contra a sagrada ordem dos bispos, e principalmente contra o Romano Pontífice; os ataques dirigidos, com a mais impudente audácia e a criminosa impiedade, contra a própria divindade de Cristo, no intuito de extirpar pelas raízes e de destruir a obra divina da Redenção, que força alguma poderá jamais destruir nem cancelar.

4. Estes ataques não são, certamente, uma novidade para a Igreja militante. Porquanto, depois do aviso dado por Cristo aos Apóstolos, ela sabe que, para instruir os homens no caminho da verdade e guiá-los à salvação eterna, ela deve todo dia descer a campo e travar combate. E, na realidade, nos séculos ela sempre lutou intrepidamente até ao martírio, considerando como sua precípua alegria e glória o poder unir o seu sangue ao do seu Fundador: no qual está depositada a segura esperança da prometida vitória.

5. Por outra parte, entretanto, não podemos ocultar nos o profundo senso de tristeza que penetra os melhores, ante esta contínua tensão de batalha. De fato, é motivo de imensa tristeza ver o grande número dos que, pela perversidade dos erros e por esta insolente atitude contra Deus, são arrastados para longe e impelidos para o abismo; o grande número dos que, pondo num mesmo plano todas as formas de religião, pode-se dizer que já estão na iminência de abandonar a fé divina; o número notável dos que são cristãos só de nome, e não cumprem os deveres da sua fé.

E ainda mais nos aflige e nos atormenta o ânimo o considerarmos que a causa principal de tais ruinosos tais ruinosos e deploráveis males está na exclusão completa da Igreja das ordenações sociais, enquanto de propósito se hostiliza a sua salutar influencia. E nisto é de reconhecer um grande e merecido castigo de Deus, o qual cega miseravelmente as nações que se afastam d’Ele.

A necessidade da oração 

6. Este estado de coisas mostra, com evidência sempre maior, o quanto é necessário que os católicos orem e supliquem a Deus com fervor e perseverança "sem nunca cessar" (1Tim 5, 17); e não somente em particular, porém ainda mais em público. Reunidos nos sagrados templos, conjurem Deus a se dignar, na sua infinita bondade, de livrar a sua Igreja "dos homens insolentes e malvados" (2 Tim 3, 2), e a reconduzir os povos ao caminho da salvação e da razão, na luz e no amor de Cristo.

7. Espetáculo incrível e maravilhoso! Enquanto o mundo percorre o seu caminho tormentoso, fiado nas suas riquezas, na sua força, nas suas armas e no seu engenho, a Igreja, com passo veloz e seguro, atravessa os séculos, depositando a sua confiança somente em Deus, a quem, de dia e de noite, ergue o olhar e estende as mãos súplices. Porque, embora na sua prudência não desdenhe os socorros humanos que, pela bondade divina, os tempos lhe oferecem, todavia não é nestes meios que ela deposita a sua principal esperança; mas sim na oração, coletiva e insistente, elevada ao seu Deus. Nesta fonte ela alimenta e fortifica a sua vida; porque, elevando-se, mediante a oração assídua, acima das vicissitudes humanas, e mantendo-se constantemente unida a Deus, é-lhe dado viver, plácida e tranqüila, da própria vida de Cristo. E nisto ela é fiel imagem de Cristo, a quem o horror dos tormentos, sofridos pelo nosso bem, nada diminuiu nem tirou da beatíssima luz e da felicidade que lhe são próprias.

Exemplos de oração na Sagrada Escritura

8. Este grande ensinamento do cristianismo sempre foi escrupulosamente praticado pelos cristãos dignos deste nome. Quando à Igreja ou a quem lhe regia os supremos destinos estava iminente algum perigo, mercê da perfídia e da violência de homens perversos, então com maior insistência e freqüência elevavam os cristãos suas preces a Deus.

9. De tal costume achamos luminoso exemplo nos fiéis da Igreja nascente, exemplo digno de ser proposto à imitação de todos os pósteros. Pedro, Vigário de Cristo, Pontífice supremo de toda a Igreja, por ordem do ímpio Herodes fora lançado no cárcere, e destinado a segura morte. Ninguém estava em condições de lhe levar auxílio para o subtrair àquele perigo. Mas não faltava esse auxílio único que a devota oração sabe obter de Deus. Como nos testemunha a Sagrada Escritura, a .Igreja elevava a Deus fervorosíssimas preces por ele: "Mas a Igreja fazia a Deus contínuas preces por ele" (At 12, 5). E tanto mais ardente se tornava o empenho da sua oração, quanto mais grave era a angústia que eles experimentavam por aquela desventura. Todos sabem que essas preces foram atendidas. Antes, todos os anos o povo cristão celebra sempre com agradecida alegria a lembrança da miraculosa libertação de S. Pedro.

10. Outro exemplo, ainda mais luminoso, antes divino, dá-no-lo o próprio Cristo, que se propusera encaminhar e formar na perfeição a sua Igreja não só com os novos preceitos, mas também com a sua vida. Durante e curso de toda a sua vida Ele se dedicara mui freqüente e longamente à oração.

Mas, nas suas horas supremas, quando, no horto de Getsêmani, a sua alma foi invadida de uma angústia imensa e oprimida por uma tristeza mortal, Ele não somente orava, porém "orava mais intensamente" (Lc 22, 43). E isto Ele fez não para si mesmo, pois, como Deus, nada podia temer e de nada precisava; mas fê-lo para nossa vantagem, e para vantagem da sua Igreja, cujas futuras orações e futuras lágrimas desde então Ele generosamente fazia suas, tornando fecundas umas e outras com a sua graça.

Maria mediadora de todas as graças

11. Mas, depois que, por virtude do mistério da Cruz, foi realizar a salvação do gênero humano, e depois que, com o triunfo de Cristo, a Igreja foi plenamente constituída dispensadora da sua salvação, desde então a Providência preparou e estabeleceu para este novo povo uma ordem nova.

12. As disposições da divina Sabedoria devem ser olhadas com profunda veneração. O Filho eterno de Deus, querendo assumir a natureza humana para redimi-la e nobilitá-la, e portanto para contrair um místico consórcio com o gênero humano, não deu cumprimento a este seu desígnio senão depois de obter o livre consentimento daquela que fora designada para sua Mãe, e que, em certo sentido, representava todo o gênero humano; segundo a célebre e veracíssima sentença do Aquinate: "Por meio da Anunciação aguardava-se o consentimento da Virgem, em nome e em representação de toda a natureza humana" (S. Tomás, 3, q. 30, a. 1).

Por conseqüência, pode-se com toda verdade e rigor afirmar que, por divina disposição, nada nos pode ser comunicado, do imenso tesouro da graça de Cristo - sabe-se que "a glória e a verdade vieram de Jesus Cristo" (Jo 1, 17), - senão por meio de Maria. De modo que, assim como ninguém pode achegar-se ao Pai Supremo senão por meio do Filho, assim também, ordinariamente, ninguém pode achegar-se a Cristo senão por meio de sua Mãe.

13. Quanta sabedoria e misericórdia resplandece nesta disposição da Divina Providência! Que compreensão da debilidade e fragilidade humana! De fato, nós cremos na infinita bondade de Cristo, e por ela lhe rendemos louvor; mas também cremos na sua infinita justiça, e desta temos temor. Sentimos uma profunda gratidão pelo amor do Salvador, que por nós deu generosamente o seu Sangue e a sua vida; mas, ao mesmo tempo, tememo-lo no seu caráter de juiz inexorável. Apreensivos pela consciência dos nossos pecados, precisamos, por isto, de um intercessor e de um patrono que, de um lado, goze em alto grau do favor divino, e, de outro, seja de ânimo tão benévolo que a ninguém recuse o seu patrocínio, nem mesmo aos mais desesperados, e ao mesmo tempo infunda confiança na divina clemência àqueles que, abatidos, jazem no desconforto.

Mãe de Deus e Mãe dos homens

14. Pois bem: essa eminentíssima criatura é justamente Maria: certamente Ela é poderosa, porque é Mãe de Deus onipotente, porém - o que é mais consolador -é amorosa, de uma extrema benevolência, de uma indulgência sem limites. Tal no-la deu o próprio Deus, que, havendo-a escolhido para Mãe de seu Unigênito, infundiu-lhe, por isso mesmo, sentimentos requintadamente maternos, capazes somente de bondade e de perdão. Tal no-la mostrou Jesus, quer quando consentiu em ser sujeito e obedecer a Maria, como um filho a sua mãe, quer quando, do alto da Cruz, confiou às suas amorosas solicitudes todo o gênero humano, na pessoa do discípulo João. Tal, enfim, se mostrou ela mesma quando, acolhendo generosamente a pesada herança que lhe deixava seu Filho moribundo, desde aquele momento começou a cumprir, para com todos, os seus deveres de Mãe.

O recurso a Maria na tradição cristã

15. Este plano de terna misericórdia executado por Deus em Maria e ratificado por Cristo com a sua última vontade, foi desde o início compreendido com imensa alegria pelos santos Apóstolos e pelos primeiros fiéis; foi compreendido e ensinado pelos venerandos Padres da Igreja; foi concordemente compreendido, em todos os tempos, pelo povo cristão. E mesmo quando a tradição e a literatura se calassem, esta verdade seria igualmente atestada com grandíssima eloquência pela voz que irrompe do coração de cada cristão.

Sem uma fé divina não se explicaria o imperioso impulso que nos impele e docemente nos arrasta para Maria; o vivo desejo, ou, melhor, a necessidade que sentimos de procurar refúgio na proteção e no auxílio daquela a quem podemos confiar plenamente os nossos projetos e as nossas ações, a nossa inocência e o nosso pensamento, os nossos tormentos e as nossas alegrias, as nossas preces e os nossos votos, em suma todas as nossas coisas; a doce esperança e a confiança, por nós nutridas, de que aquilo que seria menos aceito a Deus, porque apresentado por nós, indignos pecadores, poderá tornar-se-lhe agradabilíssimo se o confiarmos a sua Mãe Santíssima.

Quanto mais a alma se alegra com a verdade e suavidade destes pensamentos, outro tanto se entristece por causa daqueles que, privados da fé divina, não honram Maria: antes, não a consideram nem mesmo como Mãe. E ainda mais se contrista o Nosso coração por causa daqueles que, embora participantes da santa fé, ousam acusar os bons de excessivo e exagerado culto para com Maria, ofendendo com isto grandemente a piedade filial.

16. Portanto, no meio da tempestade de males que tão duramente atormentam a Igreja, todos os devotos filhos desta mesma Igreja vêem claramente que urgente dever têm de orar insistentemente a Deus onipotente, e, sobretudo, de que modo devem aplicar-se a isso para que as suas preces tenham máxima eficácia. Seguindo o exemplo de nossos piedosíssimos pais e antepassados, recorramos a Maria, nossa santa Rainha; e, concordemente, supliquemos a Maria, Mãe de Jesus Cristo e Mãe nossa: "Mostra-te nossa Mãe, e por meio de ti acolha nossas preces Aquele que, nascido para nós, quis ser teu Filho" (Da sagrada liturgia).

Excelência do Rosário

17. Ora, como quer que, entre a diversas formas e maneiras de honrar a divina Mãe, são de preferir aquelas que por si mesmas são julgadas mais excelentes e a ela mais agradáveis, apraz-nos expressamente apontar e vivamente recomendar o santo Rosário. A este modo de orar foi dado, na linguagem comum, o nome de "coroa", porque ela também recorda, num feliz enredo, os grandes mistérios de Jesus e de Maria: as suas alegrias, as suas dores e os seus triunfos. Se os fiéis meditarem e contemplarem devotamente, na ordem, devida, estes augustos mistérios, haurirão deles um admirável auxílio, quer em alimentar a sua fé e em preservá-la da ignorância e do contágio dos erros, quer em elevar e fortalecer o vigor do seu espírito.

De feito, por esse modo o pensamento e a memória de quem reza são, à luz da fé, atraídos com suavíssimo ardor para estes mistérios. Neles concentrados e imersos, nunca se cansarão de admirar a obra inenarrável da Redenção humana, levada a efeito a tão caro preço e com uma sucessão de tão grandes acontecimentos. E, diante destas provas da divina caridade, a alma se inflamará de amor e de gratidão, consolidará e aumentará a sua esperança, e avidamente visará à recompensa celeste, preparada por Cristo para aqueles que se Lhe houverem unido pela imitação dos seus exemplos e pela participação das suas dores. E, enquanto isso, com os lábios se pronunciam as orações ensinadas pelo próprio Cristo, pelo Arcanjo Gabriel e pela Igreja. Orações tão cheias de louvores e de salutares aspirações não poderão ser repetidas e continuadas, na sua vária e determinada ordem, sem produzirem sempre novos e suaves frutos de piedade.

Origem e glórias do Rosário

18. Que, pois, a própria Rainha do Céu haja ligado a esta oração uma grande eficácia, demonstra-o o fato de haver ela sido instituída e propagada pelo ínclito S. Domingos, por impulso e inspiração dela, em tempos especialmente tristes para a causa católica, e bem pouco diferentes dos nossos, e instituída como um instrumento de guerra eficacíssimo para combater os inimigos da fé.

19. Com efeito, a seita herética dos Albigenses, ora sorrateira, ora abertamente, invadira numerosas regiões; espantosa descendência dos Maniqueus, repetia ela os monstruosos erros destes, e renovava as suas hostilidades, as suas violências e o seu ódio profundo contra a Igreja. Contra essa turba tão perniciosa e arrogante, já agora pouco ou nada se podia contar com os auxílios humanos, quando o socorro veio manifestamente de Deus, por meio do Rosário de Maria.

Assim, graças à Virgem, gloriosa e debeladora de todas as heresias, as forças dos ímpios foram abatidas e quebradas, e a fé de muitíssimos ficou salva e intacta. E pede-se dizer que semelhantes fatos se verificaram no seio de todos os povos. Quantos perigos conjurados! Quantos benefícios alcançados! A história antiga e moderna aí está para o demonstrar com os mais luminosos testemunhos.

Difusão e vitalidade do Rosário

20. Porém outra prova evidente também nos é fornecida pelo fato de, apenas instituída a oração do Rosário, haver-se a sua prática em brevíssimo tempo propagado por toda parte, entre toda classe de pessoas. E, de feito, se é verdade que o povo cristão tem achado diversas formas e títulos insignes para honrar a Mãe de Deus, que sozinha se eleva, entre todas as criaturas, por tantas excelsas prerrogativas, todavia é inegável que os fiéis sempre amaram de modo todo particular o título do Rosário: isto é, essa maneira de orar que é considerada como a senha da nossa fé e o compêndio do culto a ela devido.

E têm-na praticado particularmente e em público, no interior das casas e no seio das famílias; instituindo confrarias, consagrando altares, promovendo solenes procissões; convencidos de que de nenhum outro modo poderiam melhor honrar as suas festas e merecer o seu patrocínio e as suas graças.

21. Nem passe em silêncio um fato que focaliza uma particular providência de Nossa Senhora acerca do Rosário. E é este. Quando, com o correr do tempo, no seio de algum povo pareceu enfraquecer-se o gosto pela piedade, e relaxar-se também a prática desta oração, mal se desenhou, pelo lado do Estado, algum gravíssimo perigo, ou se apresentou qualquer necessidade pública, por voto unânime foi a prática do Rosário, de preferência a outras manifestações religiosas, que foi como que por encanto revocada a uso e recolocada no seu lugar de honra, com geral benefício. E desta asserção não se faz mister ir buscar as provas no passado, porque temos ao alcance da mão uma insigne nos nossos dias.

Como dissemos desde o princípio, estes nossos tempos são cheios de amargura para a Igreja de Deus, e ainda mais para Nós, chamado pela Providência Divina a governá-la. Ora, justamente nestes tempos é que nos é dado notar e admirar, em toda parte do orbe católico, um fervoroso despertar na prática e na devoção do Rosário. E, visto que este fato, antes que à diligência humana, se deve efetivamente atribuir a Deus, que dirige e conduz os homens, isto consola, e levanta o Nosso ânimo, enchendo-o de grande confiança em que, pela intercessão de Maria, a Igreja poderá alcançar novos e mais extensos triunfos.

Como se deve orar

22. Há alguns que crêem as coisas que havemos relembrado; mas, depois, vendo não haver sido ainda alcançado nada daquilo que se esperava - e em primeiro lugar a paz e a tranqüilidade da Igreja, antes, vendo a situação tornar-se sempre mais ameaçadora, como que cansados e desconfiados diminuem a assiduidade e o ardor da sua oração. Mas estes deveriam, em primeiro lugar, refletir, e fazer com que as orações por eles dirigidas a Deus sejam dotadas dos requisitos que, segundo o preceito de Cristo Senhor Nosso, são necessários.

E, depois, se as suas orações fossem realmente tais, deveriam eles além disso considerar que é coisa indigna e culposa o querer fixar a Deus o momento e o modo de vir em nosso socorro, a Deus que não nos deve nada; tanto que, quando Ele atende a quem lhe ora, e quando "coroa os nossos méritos, na realidade não coroa outra coisa senão os seus próprios dons" (S. Agostinho, Epistola 194 al. 105 ad Sixtum, c. 5, n. 19); e, quando não secunda os nossos desejos, comporta-se providencialmente como um bom pai para com seus filhos, o qual tem piedade da estultícia destes, e olha sempre à sua verdadeira utilidade.

A oração pela Igreja e a oração da Igreja

23. Mas Deus acolhe benignamente e atende as orações que amparadas pela intercessão dos Santos, devotamente lhe erguemos para torná-lo propício à sua Igreja; seja quando para a sua Igreja pedimos os bens mais altos e eternos, seja quando pedimos bens importantes e temporais, mas, em todo caso, úteis àqueles. Com efeito, a tais orações adita valor e imensa eficácia, com suas orações e seus méritos, Nosso Senhor Jesus Cristo, que "amou a Igreja e deu-se a si mesmo por ela, com o fim de santificá-la... para fazer aparecer diante de Si mesmo, gloriosa, a Igreja" (Ef 5, 25-27); Ele que lhe é o Pontífice supremo, santo, inocente, "sempre estando vivo, para poder interceder por nós"; Ele que, nas suas orações e súplicas - cremo-lo por fé divina - sempre consegue o seu intento.

24. Portanto, no que diz respeito aos interesses da Igreja, é sabido que as mais das vezes ela deve lutar com adversários formidáveis por ódio e poder; e sobejas vezes deve ela doer-se de que pelos seus inimigos lhe sejam arrancados os seus bens, limitada e oprimida a sua liberdade, atacada e desprezada a sua autoridade, e, em suma, infligidos danos e violências de todo gênero.

E, se nos perguntarem por que razão a maldade destes não chega ao cúmulo de injustiça que eles se propõem e se esforçam por atingir, e, de outra parte, por que razão a Igreja, mesmo no meio de tantas vicissitudes, refulge sempre, conquanto de modos diversos, da mesma grandeza e da mesma glória, e continua a progredir, justo é atribuir à verdadeira causa de um e de outro fato ao poder da oração unânime da Igreja; não podendo humanamente explicar-se como a iniquidade, mesmo tão descarada, seja contida dentro de limites tão estreitos ao passo que a Igreja, embora mantida em opressão, alcança sem embargo, tão esplêndidos triunfos.

E isto aparece ainda mais evidente no campo desses bens de que a Igreja se serve para conduzir os homens à posse do bem supremo. Visto haver ela nascido justamente para esta missão, a sua oração deve ter uma grande eficácia em obter que se cumpra perfeitamente sobre os homens o desígnio da providência e misericórdia de Deus; de modo que, quando os homens oram com a Igreja e por meio da Igreja, em definitivo impetram e obtêm aquilo que "desde a eternidade Deus onipotente dispusera conceder" (S. Tomás, II-II, q. 83, a. 2: de S. Greg. Magno).

Os milagres da oração

25. Neste mundo a mente humana falha em face dos excelsos planos da Divina Providência; mas dia virá em que o próprio Deus, na sua grande bondade, nos manifestará as causas e o enredo dos acontecimentos; e então aparecerá claramente que poderosa eficácia de impetração teve nesta ordem de coisas o dever da oração.

Então ver-se-á que foi justamente por virtude da oração que muitos, mesmo em meio à grande corrupção do mundo depravado, se conservaram puros e isentos "de toda contaminação de carne e de espírito, realizando a santificação no temor de Deus" (2 Cor, 7, 1); que outros, quando estavam a ponto de ceder ao mal, não somente se contiveram, mas do perigo e da tentação tiraram um acréscimo de virtude; que outros, já derrubados, por um estímulo interior foram impelidos a levantar-se e a lançar-se no amplexo de Deus misericordioso.

26. Por isto Nós conjuramos todos a quererem meditar atentamente estas verdades; a não se deixarem seduzir pelos ardis do antigo inimigo; a nunca abandonarem, por motivo algum, a prática da oração; antes os exortamos a perseverarem nela, sem nunca se cansarem. E, em primeiro lugar, lembrem-se de implorar o mais alto de todos os bens: a salvação eterna de todos, e a incolumidade da Igreja. Depois disto poderão invocar de Deus os outros bens que concernem à prosperidade temporal; contanto que sejam resignados à sua justíssima vontade, e que, atendidos ou não nas suas orações, saibam render-Lhe graças como ao mais benfazejo dos pais.

Por último, recomendamo-lhes orarem com esse espírito de religião e de piedade que sempre convém quando se trata com Deus: como costumavam fazer os Santos, e como fazia o nosso próprio Redentor e Mestre, "com fortes gritos e lágrimas" (Heb 5, 7).

Com a oração, a mortificação

27. A esta altura, a dor e o afeto de Pai impele-nos a implorar de Deus, dador de todos os bens, para todos os filhos da Igreja, não somente o espírito da oração, mas também o da mortificação. Isto fazendo de todo coração, Nós exortamos todos, com a mesma solicitude, a praticarem esta virtude, tão estreitamente unida à outra.

Porquanto, se a oração conforta a alma, robustece-a e eleva-a às coisas celestes, a mortificação habitua-nos a dominar-nos a nós mesmos, e especialmente o corpo, que, por motivo de antiga culpa, é o mais perigoso inimigo da razão e da lei evangélica. Há entre estas virtudes - como é evidente um nexo indissolúvel. Elas se ajudam reciprocamente, e juntas tendem ao mesmo fim, que é o de desapegar o homem, nascido para o Céu, das coisas caducas deste mundo, para elevá-lo quase a uma celeste intimidade com Deus. Ao contrário, aquele que tem o ânimo aceso pelas paixões e amolecido pelos prazeres tem náusea das alegrias celestes, que nunca experimentou. A sua oração não passa de uma voz fria e lânguida, certamente indigna de ser escutada por Deus.

O exemplo dos santos

28. Temos sob os olhos os exemplos de mortificação a nós deixados pelos Santos. Pois bem: era justamente esse espírito de mortificação que tornava aceitas a Deus as suas orações; tanto que, como nos atesta a história sagrada, eles tiveram até mesmo o poder de operar milagres. Esses Santos eram assíduos em regular e refrear a mente, o coração e as paixões; submetiam-se sempre com grande docilidade e humildade à doutrina de Cristo, aos ensinamentos e aos preceitos da sua Igreja; nada queriam, nada recusavam, sem antes haver sondado a vontade de Deus; nas suas ações não se propunham outro escopo senão a maior glória de Deus; continham e reprimiam energicamente os apetites da carne; tratavam o próprio corpo duramente e sem piedade; e, por amor da virtude, abstinham-se até mesmo das coisas por si mesmas lícitas. Assim podiam com razão aplicar a si mesmos as palavras que o Apóstolo Paulo dizia de si: "já que a nossa cidadania é nos céus" (Filip 3, 20); e, pela mesma razão, as suas orações eram tão eficazes em lhe tornar Deus propício e benigno.

Necessidades da penitência

29. Certamente, nem a todos é dada a possibilidade, nem todos têm a obrigação de fazer o mesmo; mas cada um é obrigado, segundo o seu poder, a mortificar a sua vida e os seus costumes. Exige-o a justiça divina, à qual é dada estrita satisfação das culpas cometidas; e é preferível dar essa satisfação enquanto se está em vida, com penitências voluntárias, porque assim também se tem o mérito da virtude.

Além disto, já que nós todos estamos unidos e vivemos no corpo místico de Cristo, que é a Igreja, daí se segue, consoante S. Paulo, que, tal como os gozos, assim também as dores de um membro são comuns a todos os outros membros: quer dizer que os irmãos cristãos devem vir voluntariamente em auxílio dos outros irmãos nas suas enfermidades espirituais ou corporais, e, na medida em que estiver em seu poder, cuidar da cura deles; "os membros tenham a mesma solicitude uns com os outros; e, se um membro sofre, sofrem com ele todos os membros; ou, se tem glória um membro, todos os membros se regozijam com ele.

Ora, vós sois corpo de Cristo, e particularmente sois membros deste" (1 Cor 12,25-27). Nesta prova que a caridade nos pede, de expiarmos as culpas de outrem, a exemplo de Jesus Cristo, que com imenso amor deu a sua vida para redimir todos do pecado, está esse grande vínculo de perfeição que une estreitamente os fiéis entre si, com os Santos e com Deus.

30. Em suma, o espírito da santa mortificação é tão vário, industrioso e extenso, que qualquer um desde que animado de piedade e de boa vontade pode praticá-lo com muita freqüência e sem esforço excessivo.

Exortações e esperanças 

31. Depois do que até aqui expusemos, não nos resta, Veneráveis Irmãos, senão esperar dos Nossos avisos e das Nossas exortações o êxito mais consolador. E de fato o esperamos da vossa singular e profunda piedade para com a augusta Mãe de Deus, da vossa solicitude e do vosso zelo pelo rebanho a vós confiado. E já a nossa alma se alegra em prever frutos felizes e abundantes, como aqueles que os católicos souberam colher da sua notável piedade para com Maria. Que, pois, graças aos vossos convites, às vossas recomendações e ao vosso exemplo, os fiéis, especialmente no próximo mês, acorram e se reúnam em torno dos altares, solenemente ornados, da augusta Rainha, da benigníssima Mãe; e com coração filial lhe entreteçam e lhe ofereçam místicas coroas com a recitação, a ela tão grata, do Rosário.

De Nossa parte, confirmamos e ratificamos não só as prescrições já outras vezes dadas a propósito, mas também as sagradas Indulgências já concedidas (Encíclica "Supremi Apostolatus", 1 Set. 1883. Encíclica "Superiore Anno", 30 Ag. 1884; Decreto S. R. C. "Inter Plurimos", 20 Ag. 1885; Encíclica "Quanquam Pluries", 15 Ag. 1889). Oh! como será belo e vantajoso o espetáculo de milhões de fiéis que, em todo o orbe católico - nas cidades, nas aldeias, nos campos, em terra e no mar, - fundindo juntos os seus louvores e as suas preces, os seus pensamentos e as suas vozes, saudarem a todas as horas do dia Maria, invocarem Maria, e tudo esperarem de Maria! Roguem-lhe todos, com confiança, queira Ela obter de seu Filho que as nações transviadas voltem às instituições e aos princípios cristãos, nos quais assenta a base do bem-estar público, e da qual jorram os benefícios da desejada paz e da verdadeira felicidade.

Porém ainda mais insistentemente lhe peçam aquilo que deve estar no ápice dos desejos de todos os bons, ou seja a liberdade da Igreja e a pacífica posse dessa liberdade, de que ela não se serve senão para proporcionar aos homens o bem supremo. Desta liberdade, nem indivíduos nem Estados sofreram jamais dano algum; antes, dela hauriram sempre inúmeros e inestimáveis benefícios.

32. Finalmente, Veneráveis Irmãos, que pela intercessão da Rainha do Rosário Deus vos conceda os favores e as graças celestes, das quais possais haurir, em sempre maior abundância, auxílio e força para cumprirdes santamente os deveres do vosso ministério pastoral. E delas seja penhor e auspício a Bênção Apostólica que de coração concedemos a vós, ao vosso clero e ao povo confiado aos vossos cuidados.

Dado em Roma, junto a S. Pedro, a 22 de Setembro de 1891, décimo quarto ano do Nosso Pontificado.

LEÃO PP. XIII

CARTA ENCÍCLICA - MAGNAE DEI MATRIS - PAPA LEÃO XIII

CARTA ENCÍCLICA

MAGNAE DEI MATRIS

DE SUA SANTIDADE 
PAPA LEÃO XIII 

A TODOS OS NOSSOS VENERÁVEIS
IRMÃOS, OS PATRIARCAS,
PRIMAZES, ARCEBISPOS
E BISPOS DO ORBE CATÓLICO,
EM GRAÇA E COMUNHÃO
COM A SÉ APOSTÓLICA

SOBRE O ROSÁRIO DE NOSSA SENHORA



Veneráveis Irmãos,
Saúde e Bênção Apostólica.

A devoção do Santo Padre a Maria

1. Todas as vezes que nos é dado o ensejo de aumentar no povo cristão o culto e o amor à gloriosa Mãe de Deus, a Nossa alegria e a Nossa satisfação chegam ao auge. E isto porque a coisa não só é de per si importantíssima - e fecunda de bons frutos, mas também se harmoniza do melhor modo com os sentimentos mais íntimos do Nosso coração.

Sugada, na verdade, com o leite materno, depois a Nossa piedade para com Maria veio sempre crescendo e consolidando-se em Nós, com o passar dos anos. E isto porque a Nossa inteligência sempre mais claramente compreendia o quanto era digna de amor e de louvor aquela a quem ó próprio Deus amou em primeiro, e com tal afeto que a elevou acima de todas as criaturas, a enriqueceu dos dons mais magníficos, e a escolheu, enfim, para sua Mãe. Por outra parte, as numerosas e fúlgidas provas da sua bondade e benevolência para conosco - provas que Nós não podemos recordar sem a mais profunda gratidão e sem derramar lágrimas de emoção - aumentaram sempre mais em Nós esta piedade, e mais ardentemente a inflamaram.

Porquanto, no meio das muitas, variadas e terríveis vicissitudes que temos atravessado, sempre temos recorrido a ela, e para ela temos sempre volvido o Nosso olhar. E, depois de depositar no seu seio todas as Nossas esperanças e todos os Nossos temores, alegrias e tristezas, foi Nossa constante solicitude suplicá-la, para que se dignasse de, em todas as ocasiões, assistir-nos como uma mãe terníssima, e alcançar-nos, em troca, o singular favor de podermos testemunhar-lhe o Nosso afeto devoto e filial.

Quando, depois, por misterioso desígnio de Deus fomos chamado à Cátedra de S. Pedro, para representarmos na Igreja a própria pessoa de Jesus Cristo, aterrados com o peso enorme deste ofício, e não tendo nenhuma confiança nas Nossas próprias forças, com afeto ainda mais intenso solicitamos a divina assistência, mediante a maternal proteção da Virgem.

E o Nosso coração exulta em proclamar que, no curso de toda a Nossa vida, mas especialmente no exercício do Nosso Supremo Apostolado, a Nossa esperança nunca deixou de ser coroada ou pelo desejado êxito ou, ao menos, por um doce conforto. Após tal experiência, a Nossa esperança alça-se agora mais confiante, enquanto pedimos, com o seu favor e pela sua intercessão, graças ainda mais copiosas e mais importantes, para a salvação do rebanho cristão e para a maior glória da Igreja.

Justo é, pois, e oportuno, Veneráveis Irmãos, que dirijamos a todos os Nossos filhos palavras de incitamento - às quais ajuntareis a vossa exortação -a fim de que eles queiram celebrar o próximo mês de Outubro, consagrado à augusta Senhora e Rainha "do Rosário", com redobrando fervor, igual às acrescidas necessidades dos tempos.

A audácia dos ímpios

2. Já agora é de todos conhecidíssimo com quantos e quais meios de corrupção a malícia do mundo iniquamente se esforça por enfraquecer e por extirpar inteiramente dos corações a fé cristã e a observância da lei divina, que alimenta esta fé e a faz frutificar. E já por toda parte o campo do Senhor, como que talado por uma terrível peste, quase se asselvaja, pela ignorância da religião, pelo erro e pelos vícios. E o que é ainda mais doloroso é que aqueles que teriam o poder disso, antes, que disso teriam o sagrado dever, longe de porem um freio ou de infligirem justas penas a uma perversidade tão arrogante e culposa, muitas vezes, pelo contrário, parece que a tal audácia dêem incentivo, ou pela sua inércia, ou com o seu apoio.

Por isto, com bem razão deve contristar-nos que às escolas públicas tenha sido deliberadamente dada uma organização tal que consente que o nome de Deus seja nelas calado ou ali seja ultrajado; devemo-Nos entristecer com a licença, cada vez mais disfarçada, de imprimir ou pregar toda sorte de ultrajes contra Cristo, Deus e a Igreja. Nem é menos deplorável esse conseqüente langor e entibiamento da prática cristã, se não é uma franca apostasia da fé, certamente está próximo de vir a sê-lo; porque a prática da vida já agora não é mais aderente à fé. Quem considerar esta perversão e esta ruína dos interesses mais vitais, certamente não se admirará se por toda parte as nações vão gemendo sob o peso dos castigos divinos, e são consternadas pelo temor de calamidades ainda mais graves.

Necessidade de praticar o Rosário

3. Ora, para aplacar a majestade de Deus ofendida, e para proporcionar o necessário remédio àqueles que tanto sofrem, certamente não há melhor meio do que a oração devota e perseverante, contanto que unida ao espírito e à prática da vida cristã. Para alcançarmos, pois, estes dois escopos, consideramos que o meio mais indicado é o "Rosário Mariano". A sua poderosíssima eficácia tem sido experimentada e exaltada desde a sua bem conhecida origem; conforme notáveis documentos atestam, e como Nós mesmo, mais de uma vez, temos lembrado.

Quando a seita dos Albigenses -aparentemente paladina da integridade da fé e dos costumes, mas, na realidade, perturbadora e péssima corruptora dela - era para muitos povos causa de grande ruína, a Igreja combateu contra ela e contra as suas infames facções, não com milícias ou com armas, mas principalmente com a força do santo Rosário, que o patriarca S. Domingos propagou, por inspiração da própria Mãe de Deus. Assim, gloriosamente vitoriosa de todos os obstáculos, a Igreja, nessa como em outras tempestades semelhantes, proveu sempre com esplêndido êxito à salvação de seus filhos.

Por isto, na presente situação, que Nós deploramos como lutuosa para a religião e perigosíssima para a sociedade, é necessário que todos juntos - com piedade igual à dos nossos antepassados - roguemos e supliquemos a grande Mãe de Deus, para que, consoante os votos comuns, possamos alegrar-nos de haver experimentado igual eficácia do seu Rosário.

E, verdadeiramente, quando recortemos a Maria recorremos à Mãe da misericórdia; a qual está tão bem disposta para conosco, que em qualquer necessidade nossa, sobretudo nas espirituais, ela logo, espontaneamente, sem sequer ser invocada, vem em nosso socorro, e faz-nos participar desse tesouro de graça cuja plenitude ela desde o princípio recebeu de Mãe. Esta Deus, para que pudesse tornar-se sua digna superabundância de graça - o mais eminente dos seus outros inúmeros privilégios - é que eleva a Virgem muito acima de todos os homens - e de todos os Anjos, e a aproxima de Cristo, mais do que se aproxima qualquer outra criatura: "É coisa grande em qualquer santo o possuir tanta graça que baste para a salvação de muitos: mas, se ele a tivesse tanta que bastasse para a salvação de todos os .homens do mundo, isto seria o máximo; e isto se verifica em Cristo e na bem-aventurada Virgem" (S. Tomás, op. VIII, Super Salutatione Angelica).

As ternuras de nossa Mãe Celeste

4. Difícil é, pois, dizer o quanto se torna agradável a Maria o nosso obséquio, quando a saudamos com louvor do Anjo, e depois repetimos o mesmo elogio, como que formando com ele uma devota coroa. Porque, a cada vez, nós como que despertamos nela a lembrança da sua sublime dignidade e da redenção do gênero humano, iniciada por Deus por meio dela: por conseqüência, nós também lhe recordamos esse divino e indissolúvel vínculo com que ela está unida às alegrias e às dores, às humilhações e aos triunfos de Cristo, em guiar e em assistir os homens para a salvação eterna. Jesus Cristo, na sua bondade, quis assemelhar-se a nós e dizer-se e mostrar-se filho do homem, e por isto nosso irmão, a fim de que mais luminosa nos aparecesse a sua misericórdia para conosco: "Em tudo ele teve de ser feito semelhante a seus irmãos, para se tornar misericordioso" (Heb 2, 17).

Assim Maria, pelo fato de haver sido escolhida como Mãe de Jesus, Nosso Senhor - que é ao mesmo tempo nosso irmão - teve, entre todas as mães, a singular missão de manifestar e de derramar sobre nós a sua misericórdia. Além disto, assim como nós somos devedores a Cristo de nos haver, de certo modo, tornado participantes do seu próprio direito de chamar e de ter a Deus por pai, assim também lhe somos igualmente devedores de nos haver amorosamente tornado participantes do seu direito de chamar e de ter Maria por Mãe.

E, visto como, por natureza, o nome de mãe é entre todos o mais doce, e no nome de mãe está posto o termo de comparação de todo amor terno e solícito, todas as almas piedosas sentem - embora a sua língua não consiga exprimi-lo - que uma imensa chama de amor condescendente e operoso arde em Maria, que, não por natureza, mas por vontade de Cristo, é nossa Mãe. Por isto ela vê e penetra, muito melhor do que qualquer outra mãe, todas as nossas coisas: as necessidades da nossa vida; os perigos públicos e particulares que nos ameaçam; as dificuldades e os mates em que nos debatemos; e sobretudo a áspera luta que devemos sustentar para a salvação da alma, contra inimigos violentíssimos.

E nestas, como em todas as outras angústias da vida, mais do que qualquer outro ela pode e deseja trazer a seus caríssimos filhos consolação, força, auxílio de todo gênero. Recorramos, pois, confiantes e alegres a Maria. Supliquemo-la por esses laços maternos com que ela está tão estreitamente unida a Jesus e a nós. E invoquemos com máxima devoção o seu poderoso auxílio, servindo-nos dessa fórmula de oração que ela mesma nos indicou e que lhe é tão grata. Então poderemos, com razão, repousar com coração tranqüilo e alegre sob a proteção da mais terna entre as mães.

O Rosário reaviva a nossa fé

5. Além do valor que o Rosário tira da própria natureza da oração, ele contém uma maneira fácil para fazer penetrar e inculcar nas almas os dogmas principais da fé cristã; o que certamente constitui outro título insigne de recomendação. De feito, é sobretudo pela fé que o homem direta e seguramente se aproxima de Deus e aprende a adorar com a mente e com o coração a imensa majestade desse Deus único, a sua autoridade sobre todas as coisas, o seu sumo poder, a sua sabedoria e a sua providência: "porquanto, quem se aproxima de Deus deve crer que Ele existe, e que é remunerador daqueles que o procuram" (Heb 11, 6). Mas, visto que o eterno Filho de Deus assumiu a natureza humana, viveu no meio de nós, e continua a ser para nós caminho, verdade e vida, por isto é necessário que a nossa fé abrace também os profundos mistérios da augusta Trindade das divinas pessoas, e do Filho unigênito do Pai, feito homem: "E a vida eterna é esta: que eles conheçam a ti, único Deus verdadeiro, e Aquele que enviaste, Jesus Cristo" (Jo 17, 3).

Em verdade, Deus nos deu um benefício inestimável quando nos deu esta santa fé; porque, por meio dela, nós não só nos elevamos acima de todas as coisas humanas, até nos tornarmos como que contempladores e participantes da natureza divina, mas adquirimos outrossim um direito, de mérito imenso, às eternas recompensas. De modo que se alimenta e se consolida em nós a esperança de que um dia poderemos contemplar a Deus, não mais através das pálidas imagens das coisas criadas, porém no seu pleno esplendor, e poderemos gozar eternamente d'Ele, nosso sumo bem. Mas o cristão é de tal forma empolgado pelas diversas preocupações da vida, e se inclina tão facilmente para as vaidades deste mundo, que, sem uma freqüente e salutar evocação, pouco a pouco esquecerá as coisas mais importantes e mais necessárias, e destarte a sua fé se esmorecerá e finalmente se extinguirá.

Para preservar seus filhos deste gravíssimo perigo da ignorância, a Igreja não descura nenhum dos meios que a sua vigilância e a sua solicitude lhe sugerem; e o Rosário em honra de Maria não é, certamente, o último que ela emprega para sustentar a fé. Com efeito, com a sua maravilhosa e eficaz oração, ordenadamente repetida, ele nos leva à recordação e à contemplação dos principais mistérios da nossa religião: em primeiro lugar, daqueles pelos quais "o Verbo se fez carne" e Maria, Virgem intacta e Mãe, lhe prestou com santa alegria os seus maternais ofícios. Vêm depois as amarguras, os tormentos, a morte de Cristo, preço da salvação do gênero humano.

Finalmente, são os mistérios gloriosos: o triunfo sobre a morte, a ascensão ao céu, a descida do Espírito Santo; o esplendor radiante de Maria assunta ao céu, e, por último, com a glória da Mãe e do Filho, a glória eterna de todos os Santos. E esta a ordenada sucessão de inefáveis mistérios no Rosário é freqüente e insistentemente evocada à memória dos fiéis, e como que desenrolada diante dos seus olhos; de modo que aqueles que rezam bem o Rosário têm a alma inundada por ele de uma doçura sempre nova, experimentam a mesma impressão e emoção que experimentariam se ouvissem a própria voz de sua dulcíssima Mãe, no ato de lhes explicar esses mistérios e de lhes dirigir salutares exortações.

Não poderá, pois, parecer excessiva a Nossa afirmação, se dissermos que a fé absolutamente não deve temer os perigos da ignorância e dos nefastos erros naqueles lugares, no seio daquelas famílias e no meio daqueles povos onde se mantém na primitiva honra a prática do Rosário.

O Rosário, estímulo para obras santas

6. Mas há outra utilidade, não menos importante, que do Rosário a Igreja espera para seus filhos, ou seja, a de empenhá-los em conformar a sua vida e os seus costumes às normas e aos preceitos da santa fé. De todos é conhecida a divina afirmação de que "a fé sem as obras é ineficaz" (Tiago 2, 20); porque a fé haure vida da caridade, e a caridade se manifesta numa floração de ações santas. Por isto o cristão certamente não tirará nenhum proveito da sua fé para a aquisição da eternidade, se por esta sua fé não houver inspirado a sua conduta. "Que adianta, irmãos meus, se um diz que tem fé, mas não tem as obras? Acaso poderá salvá-lo a fé?" (Tiago 2, 14).

Antes, tais cristãos serão por Cristo juiz bem mais asperamente exprobrados do que aqueles míseros que não conhecem nem a fé nem a moral cristã; porque estes últimos não crêem de um modo e vivem de outro, como sem razão fazem aqueles outros, mas, sendo privados da luz do Evangelho, têm uma certa atenuante, ou certamente a sua culpa é menos grave.

Ora, a contemplação dos mistérios propostos no Rosário ajuda a fazer brotar da nossa fé uma abundante e alegre messe de frutos, porque incita maravilhosamente a alma a propósitos de virtude. Ora, que sublime e esplêndido exemplo nos oferece, sob todos os aspectos, a obra de salvação realizada por Nosso Senhor Jesus Cristo! O grande, o onipotente Deus, impelido por um excesso de amor para conosco, abaixa-se até à condição do mais mísero homem; entretém-se conosco como um de nós; conversa fraternalmente, ensina os indivíduos e as multidões em toda ordem de justiça; mestre eminente pela sua palavra, Deus pela sua autoridade.

Mostra-se pródigo de benefícios para com todos; cura os que sofrem de moléstias corporais, e com misericórdia paternal leva alívio às moléstias, mais graves estas, da alma; de modo particular volve-se para aqueles que estão abatidos pela dor, ou estão oprimidos pelo peso das suas inquietações, e convida-os: "Vinde a mim, vós todos que estais fatigados e oprimidos, e eu vos consolarei" (Mt. 11, 28). Quando, pois, repousamos nos seus braços, Ele nos inspira algo desse místico fogo que Ele trouxe aos homens; infunde-nos amorosamente algo da mansidão e da humildade de sua alma; e deseja que, pela prática destas virtudes, nós nos tornemos participantes da paz verdadeira e estável, de que Ele é o autor. "Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e achareis repouso para vossas almas" (Mt. 11, 29).

Todavia, em compensação de tanta luz de sabedoria celeste e da abundância de tão excepcionais benefícios, que deveriam granjear-lhe a gratidão dos homens, Ele sofreu o ódio e os insultos mais atrozes; sem embargo, quando, pregado na cruz, derrama todo o seu sangue, não tem desejo mais ardente do que este: por meio da sua morte regenerar os homens para a vida. Absolutamente não é possível que alguém considere e contemple atentamente estes belíssimos testemunhos de amor do nosso Redentor, sem arder de viva gratidão para com Ele.

Antes, a fé, se for autêntica, terá então um poder tal, que, iluminando a mente do homem e comovendo-lhe o coração, como que o arrastará a seguir as pegadas de Cristo, através de todos os obstáculos, até fazê-lo prorromper naquele protesto digno de Paulo: "Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação, ou a angústia, ou a fome, ou a nudez, ou o perigo, ou a perseguição, ou a espada?" (Rom. 8, 35). "...já não vivo eu, mas vive em mim Cristo" (Gal. 2, 20).

O Rosário nos revoca aos exemplos de Maria

7. Mas, para que nós, aterrados pela consciência da nossa natural fragilidade, não desfaleçamos em face dos exemplos verdadeiramente sublimes de Cristo, Deus e Homem, juntamente com os seus mistérios oferecem-se à nossa contemplação os mistérios de sua Mãe Santíssima. Ela descende, é verdade, da linhagem real de David; ruas da riqueza e do esplendor dos seus antepassados não lhe resta mais nada; leva uma vida obscura, numa humilde cidade, e numa casa ainda mais humilde; tanto mais satisfeito com a sua solidão e com a sua pobreza quanto pode, com coração mais livre, elevar-se a Deus, e unir-se totalmente ao seu sumo e desejadíssimo bem. Mas o Senhor está com ela, e cumula-a e a faz bem-aventurada da sua graça. E é justamente ela que o celeste mensageiro designa como a mulher da qual, por virtude do Espírito Santo, deverá vir para entre nós homens o esperado Salvador das gentes.

Quanto mais ela admira a sublime altura da sua dignidade, e por ela rende graças à onipotente e misericordiosa bondade de Deus, tanto mais se humilha e se julga destituída de toda virtude. E, enquanto se Lhe torna a Mãe, sem hesitação se proclama e se protesta sua escrava. E, conforme santamente prometeu, santa e prontamente estabelece desde então uma perpétua comunhão de vida com seu Filho Jesus, tanto na alegria como no pranto. Assim ela atingirá tal altura de glória qual nenhum homem nem Anjo poderá jamais atingir, porque ninguém poderá ser-lhe jamais comparado em virtude e em méritos. Assim, a ela caberá a coroa do Céu e da terra, porque ela se tornará a invicta Rainha dos mártires. Assim, na celeste cidade de Deus, ela se assentará, eternamente coroada, junto de seu Filho, porque constantemente, durante toda a sua vida, porém de modo particular no Calvário, beberá com Ele o cálice transbordante de amargura.

Eis, portanto, que a bondade e a Providência divina nos deu em Maria um modelo de todas as virtudes, todo feito para nós. Porque, considerando-a e contemplando-a, as nossas almas já não ficam ofuscadas pelos fulgores da divindade, senão que, atraídas pelos vínculos íntimos de uma comum natureza, com maior confiança se esforçarão por imitá-la. Se, amparados pelo seu eficaz auxílio, nós nos dedicarmos com todas as nossas forças a esta obra, certamente conseguiremos reproduzir em nós ao menos algum traço de tão grande virtude e santidade; e, depois de havermos imitado a sua admirável conformidade com as divinas vontades, poderemos juntar-nos a Ela no céu.

Se bem que a nossa peregrinação terrena seja áspera e eriçada de dificuldades, caminhemos intrépidos e corajosos rumo à meta. E, nas nossas penas, nos nossos trabalhos, não cessemos de estender pára Maria as nossas mãos súplices, dizendo com a Igreja: "A vós suspiramos, gemendo e chorando neste vale de lágrimas Eia, pois, esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei! Dai-nos uma vida pura, preparai-nos uma trilha segura, para que possamos gozar eternamente da vida de Jesus" (Da sagrada liturgia). E ela, que, mesmo sem jamais a haver experimentado, conhece a fraqueza e a corrupção da nossa natureza, ela que é a melhor e a mais solícita de todas as mães, oh! como virá propícia e pressurosa em nosso auxílio! E com que ternura nos consolará! Com que força nos sustentará! Percorrendo a trilha, consagrada pelo Sangue de Cristo e pelas lágrimas de Maria, também nós chegaremos, segura e facilmente, à participação da bem-aventurada glória.

Os exemplos da Sagrada Família

8. Portanto, já que no Rosário de Maria Virgem estão bem e tão utilmente conjugados uma excelente fórmula de oração, um meio eficaz para conservar a fé, e um insigne ideal de virtude perfeita, bem justo é que os verdadeiros cristãos o tenham freqüentemente nas mãos, o rezem e o meditem piedosamente. De modo particular dirigimos esta exortação ao "Sodalício da Sagrada Família", que recentemente recomendamos e aprovamos.

Se, de fato, o fundamento deste sodalício é o mistério do longo período de vida silenciosa e oculta de Cristo Senhor, entre as paredes da casa de Nazaré, para que as famílias cristãs se esforcem constantemente por modelar-se sobre o exemplo da Sagrada Família, divinamente constituída, logo aparece evidente a sua ligação particular com o Rosário: especialmente com os mistérios gozosos, que se encerram justamente quando Jesus, depois de mostrar a sua sabedoria no Templo, "veio", com Maria e José, "para Nazaré, e lhes era sujeito"; como que assim preparando os outros mistérios com que mais de perto realizaria a obra de ensinamento e de redenção dos homens. Por tudo isto, compreendam todos os associados que diligência devem mostrar em cultivar e propagar a devoção do Rosário.

Próximo Jubileu episcopal do Santo Padre

9. Por Nossa parte, ratificamos e confirmamos os favores das sagradas Indulgências concedidas nos anos precedentes àqueles que, de acordo com as prescrições estabelecidas, bem cumprirem a piedosa prática do mês de Outubro. Muito contamos, pois, Veneráveis Irmãos, com a vossa autoridade e com o vosso zelo, a fim de que, também este ano, seja ardente entre o povo católico o fervor e a santa emulação em honrar com o Rosário a Virgem, Auxiliadora dos cristãos.

E agora apraz-nos concluir a Nossa exortação tornando ao motivo inicial. Isto é, queremos de novo e mais claramente atestar o nosso reconhecimento pelos benefícios recebidos da Virgem Santíssima, e a Nossa alegria e esperança nela. E, depois, ao povo cristão, devotamente prostrado ante os altares de Maria, pedimos rezar pela Igreja, agitada por tão adversas e tempestuosas vicissitudes, e ao mesmo tempo rezar também por Nós, que, em idade tão avançada, cansado pelos trabalhos, a braços com as mais graves dificuldades, e privado de todo socorro humano, governamos o leme da mesma Igreja.

Sim, a Nossa esperança em Maria, Mãe poderosa e terníssima, torna-se em Nós cada dia mais segura e mais consoladora. E, enquanto à sua intercessão atribuímos todos os numerosos e assinalados benefícios que Deus nos tem concedido, com particular gratidão lhe atribuímos o de podermos, dentro em não muito, atingir o qüinquagésimo aniversário da Nossa ordenação episcopal.

Bem considerando, é deveras um grande benefício um tão longo período de ministério pastoral; mas o é sobretudo o havermo-nos podido dedicar, no meio de preocupações quotidianas, a guiar todo o rebanho cristão. Durante este tempo, na Nossa vida como na de todos os homens, como também nos mistérios de Cristo e de sua Mãe, não faltaram nem motivos de alegria, nem - mais freqüentemente - graves motivos de dor, nem, às vezes, motivos de alegre complacência, em Cristo. Coisas estas todas que Nós, com espírito de humildade diante de Deus e com gratidão, nos temos , aplicado a fazer reverter em bem e em honra da Igreja.

E agora, visto que o resto da vida não será diverso, se novas alegrias resplenderem, se novas dores sobrevierem, se algum raio de glória brilhar, Nós perseveraremos nas mesmas intenções e nos mesmos sentimentos. E, nada mais invocando de Deus senão a glória celeste, repetiremos com alegria as palavras de David: "Seja bendito o nome do Senhor; não a nós, Senhor, não a nós, mas ao teu nome dá glória" (Salmos 112, 2; 113, 1).

De Nossos filhos, pois, tão devotos e tão afeiçoados, antes que felicitações e louvores ardentemente esperamos que elevem a Deus vivíssimas ações de graças, orações e votos. Contentíssimos ficaremos se eles nos obtiverem que esse pouco de vida e de forças que nos resta, o que temos de autoridade e de prestígio, possamos despendê-lo unicamente para o bem da Igreja; e, antes de tudo, para lhe reconduzir ao seio e reconciliar consigo os inimigos e os transviados, os quais a Nossa voz desde tanto tempo convida. Que da Nossa próxima alegria jubilar - se a Deus aprouver dar-no-la - possam todos os Nossos diletíssimos filhos recolher abundantes frutos de justiça, de paz, de prosperidade, de santidade, de todos os bens.

E isto que, com paternal amor, solicitamos de Deus, enquanto lhes recordamos estes seus santos avisos: "Escutai-me... e crescei como rosa plantada à beira das águas. Como incenso, exalai perfume suave. Fazei brotar flores como o lírio, e espalhai odor, e recobri-vos de amenas frondes. E cantai um cântico de louvor, e bendizei o Senhor por todas as suas obras. Dai glória ao seu nome, e louvai-o com o som dos vossos lábios e com os cantos dos lábios e com as cítaras... Com todo o coração e com toda a voz louvai e bendizei o nome do Senhor” (Ecli 39, 13 - 20, 41). 10.

Se estas exortações e estes votos encontrarem o escárnio dos homens perversos, que blasfemam tudo o que ignoram, perdoe Deus benignamente esses infelizes. De Nossa parte Lhe rogamos, pela intercessão da Rainha do santíssimo Rosário, dignar-se de favorecer com sua graça exortações e votos.

Vós, pois, Veneráveis Irmãos, em auspício de tal graça e como penhor da Nossa benevolência, recebei, nesse ínterim, a Bênção Apostólica, que com vivo afeto, no Senhor, concedemos a cada um de vós, ao vosso clero e ao vosso povo.

Dado em Roma, junto a S. Pedro, a 8 de Setembro de 1892, décimo quinto ano do Nosso Pontificado.


LEÃO PP. XIII.